Dos que me convencem que sou anjo

Posted in Redness on March 31, 2009 by heaver

Não sei a data do texto, só sei que veio aos olhos públicos hoje, no último dia do mês. Gostei da sinceridade com a qual ela anda tentando se vestir, pelo menos nesses textinhos baratos que todo mundo lê. Baratos eu digo porque eles estão aí, olhos quaisquer podem ler a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. É disso que eu não gosto, dessas máscaras de sinceridade. Mas às vezes acho que a máscara dela é a ficção. Enfim, não gosto. Não gosto de não ter certeza.
Não sei qual foi a máscara, mas sei que foi máscara. Sei que foi máscara porque chegou à caixa de correio dela um bilhete – com ares de resposta – de outrem. Como eu sei? Sou deus, acredite. Mas sou um deus inútil, não consegui sequer descobrir a que o bilhete respondia. Uma resposta simples e doce, ah isso sim, doce como açúcar. Deus ou mortal, é fácil deduzir que ela anda se atirando nos braços desses outrens que respondem aos seus pingos de carência, suas súplicas, seus tremores. Tremores sim, ela parece que faz o universo tremer pra se colocar no centro dele. Se as coisas saem de órbita, lá vai ela novamente.
Não sei, não me esclareci sobre aonde quero chegar. Talvez eu deva dizer a ela que ela procura nos outros as coisas que só se acha dentro de si. Ela procura nos outros e é certo que não acha em ninguém. E daí vêm os outrens, mais alguéns e mais e mais. Ora, mas que queres? Que a vida seja um bordel, reduzido a momentos passageiros de prazer? Sim, a vida são momentos passageiros, mas pelo amor de deus – e se sou deus, pelo meu amor! – tenha o controle do gatilho desses momentos em suas próprias mãos!
Eu passei por ela. Não fui de todo embora, mas pode-se dizer que passei sim. Como eu passarão outros, mas nenhum deles fará a pequena olhar pra dentro de si mesma. Isso eu tentei fazer, meio que inconscientemente, naturalmente – depois de algum tempo percebi que faço isso com as pessoas. Não sei se fiz direito. Algo me diz que não, ou que ainda falta fazer, falta reescrever essa história com mais força, com tinta mais forte, ou até mesmo cravar nas paredes para que a história em si seja a marca da erosão nesses muros frios, e não o contrário. E eu me preocupo com a pequena, sim. Ah se me preocupo. Não sei como, mas me preocupo. Tenho que dizer tudo isso a ela. Tenho que lhe dar um espelho. Tenho que ser o espelho. Tenho que fazê-la perceber esse espelho.
Eu poderia chamá-la pra sair, mas não me animo. Não agora, não sei… talvez outra hora. Mas não me animo porque sei que ela está vestindo as máscaras dela pra mim. Disso eu não gosto, porque são as máscaras que olhos quaisquer podem encarar a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. Não me animo, me encolho, fujo até! Fujo porque me nego a ocupar mais um lugar na estante. Me nego a dividir prateleiras. Recuso a redução a algo imóvel. Nunca fui igual a ninguém, é natural que eu me recuse a assumir o tipo de posto que ela está tentando me dar (ou está me dando por hábito). Não, prefiro não ser. Prefiro que este incômodo continue pairando no ar. Eu aprecio o incômodo. Eu estou adorando o incômodo como adorava o perfume que vinha pelo vento quando ela mexia os cabelos!  Eu adoro o incômodo e farei de tudo para que ele se mantenha no ar enquanto ela agir dessa maneira. Nunca fui igual a ninguém. É natural que eu me negue a tudo isso. É o certo!
Não é orgulho, eu juro, eu juro por tudo o que há pra ser jurado que não é orgulho. Pode soar ridículo o que vou dizer agora, mas digo mesmo assim: é a preocupação com ela que me faz agir dessa maneira. É a preocupação, e vá lá, umas doses de ciúmes sim, mas a preocupação palpita forte no meu peito. Não fico feliz em vê-la, tão falsamente certa de si mesma, sumindo nos braços alheios. Não fico feliz que vá procurar as peças do seu quebra-cabeça interior na cama dos outros. Porque os outros são inúteis! Os outros não vão te fazer olhar pra dentro de si! Era isso que eu tinha que gritar pra ela! Eu podia fuzilar essa gente toda – me matar em seguida para que não me acusem de egoísmo – e deixar somente ela e um espelho. Mas…
Mas o que me garante que ela sabe se ler?
É, lá vão mais noites de preocupação…

Escuras

Posted in Yet unsorted on March 25, 2009 by heaver

Não consigo ler. Larguei meu marcador de páginas no meio do capítulo – coisa que detesto fazer – mas não podia continuar. Seria até uma falta com Dostoiévski. As palavras passavam como a estrada em alta velocidade diante dos meus olhos, e pela minha mente ecoavam os gritos de raiva que não saíram pela garganta. Se sairão ou não, depende do que esses olhares ao redor farão comigo. Posso surtar, matar todos, matar um ou dois, posso apenas gritar.  Posso simplesmente olhar e esperar sem saber ao certo o que estou fazendo. Posso deixar que continue essa amarga invasão de pensamentos obscuros, sede de vingança ou de garganta seca mesmo, fome de paixão, saudade, e vontades. Vontades diversas. Sons que giram me envolvendo, o preto e o vermelho se misturando, fazendo o amargo ficar doce – eu quero mais, eu quero melhor. É tudo um só. É tudo uma tensão só. É tudo uma vontade, diversa, só. Não consigo escrever.

“Sangremos juntas!”

Posted in Golden Mirror, Redness on February 24, 2009 by heaver

Devia ser ódio ou algo parecido. Talvez amor, não se sabe ao certo. Mas alguma coisa de fato fazia as duas se revelarem das mesmas cores, e a um só tempo. Em silêncio absoluto, distantes; porém em uma sintonia sem igual. Nem se sabe se elas próprias sabem. Ora, mas é claro que sabem! Uma delas de vez em quando dá um grito “sangremos juntas, então!“, e a outra compreende muito bem – sente muito bem. Uma vez até ousou descer do salto, confessar as próprias dores, mostrar as feridas, mas acabou correndo. É esse o tipo de coisa que incomoda a nós, os mais vividos. Se elas soubessem o quanto elas merecem se entregar… se elas soubessem o que é que faz tudo sair tão igual, tão vívido, tão…
Sangremos juntas!” – outra súplica que se perde na saída da garganta, outra noite que se passa sem gosto, sem sentido.
Sangrem juntas sim, antes que o sangue escorra-lhes todo ralo abaixo. Sangrem e não se iludam com o fechar das feridas – o que está escrito em cicatrizes não vai embora. Sangrem juntas e sem medo, afinal o sangue é o que a vida lhes tem a oferecer de bom.

Mais uma gota

Posted in Redness on February 7, 2009 by heaver

Ainda é vermelho. Mesmo eu tendo visto as gotas pingando incessantemente, me deixando num cinza. Doeu até agora e dói ainda hoje. E a realidade fora dos meus pensamentos continua jogando na minha cara o quanto o vermelho ainda se faz presente por aqui. Nas rosas, nas fotografias, no meio das minhas pernas… pingando e escorrendo, retratando aquela dor e as outras que não se fizeram retratar de maneira alguma. Dores físicas que compensam as psicológicas, mas dane-se, danem-se as dores! Estou aqui agora – ela nem sonha – porque ouvi os gritos abafados dela. Abafados como o tempo, como o que foi o nosso meio, como o que é o nosso meio hoje, o dela e o meu, sem ser o nosso. Eu sei, eu sei o que está acontecendo! Eu queria dizer em vermelho pra ela que eu a ouvi. Eu queria sacodí-la desse transe de loucura e desespero, queria ser o vermelho que conforta, ou aquele que ela foi pra mim um dia. Foi? Ainda é. E é difícil de acreditar que deixe de ser um dia. Eu preciso desse vermelho. Ela precisa desse vermelho. Eu quero ser esse vermelho; o vermelho que batiza todo um tesouro, o vermelho que é extravagante, mas a gente se acostuma, e o costume… ah, o que o costume nos faz. Eu tive minha existência estragada pelo costume. Eu tive meus impulsos esparramados em vermelho, vermelho este que o costume se encarregou de me prover. Eu tenho, agora, essas lágrimas, mais vermelhas do que nunca, com medo de se esvaírem, de desbotarem para o cinza. Eu quero atrocidades em vermelho. Eternas, por mais que a eternidade me pareça assustadora. Eu quero meu vermelho em tom forte, vívido, de modo que essas lágrimas não consigam diluí-lo. Lágrimas já choradas, choradas outra vez – eu não sei se voltamos ao passado na alegria ou na tristeza. Saúde eu desperdiço; doença, isso é doença. Por todos os dias da minha vida.

Entrelaços

Posted in Blueness, Redness on December 26, 2008 by heaver

Elas brigam inconscientemente. Elas lutam por um mesmo espaço, numa folha de caderno. Será que elas se dão essa importância conscientemente? Não gosto de subestimar as pessoas, mas suponho que doses de fraqueza tomem conta delas com freqüência demais pra isso. Pois são umas ridículas. Um dia vou deixar isso bem claro – elas deviam e sempre deverão se dar a importância. Vou deixar claro sim, mas para qual delas? Para as duas? Com que intensidade? Quando?

Ridículos às vezes me parecem esses pensamentos que tomam a minha cabeça. (Talvez sem nexo algum para um par de olhos castanhos, ou até mesmo verdes, enfim estranhos, que estejam lendo.) Como acabo de escrever lá na mesma folha em que elas brigam sem saber – às vezes as coisas mais importântes me parecem idiotas.

Elas se odeiam. Elas mal sabem disso.

Reticências da noite

Posted in Golden Mirror on December 17, 2008 by heaver

Eis mais uma força que acorda. Ou que simplesmente não foi dormir. Mas é como se tivesse acordado, mesmo. É, acordou. É ela, a boa e velha, ela mesma. Acordou depois de muito tempo, está com aquela cara de sono ainda, e é de se imaginar que a voz seja aquela de quando a gente fala a primeira palavra depois de um bom sono. Voz. Acordou, e parece que se perde às vezes, mas essas vezes são tão pequenas e curtas, que ela nem precisa se dar o trabalho de se achar.
Como é bom, ela pensa, como é bom não fazer sentido algum. Sair assim loucamente botando pra fora tudo o que passa por dentro, com essa forma sem forma. Isso desse jeito bem seu, que determina esse conteúdo mais seu ainda.
Como é bom embalar o sono dos outros com pensamentos, desenhos, textos, loucuras, medos, vontades. Como é bom se perder numa frase.

Ser reticente para o mundo aí fora, essa é a especialidade dela. Mas aqui, na bagunça de pensamentos, nada é reticente… ou tudo… ou as reticências sempre conduzem a algum lugar mais alto. Alto? Depende do ponto de vista – e é aí que ela, mais uma vez, demonstra sua sapiência. É perspectivada, não veicula nada por si só. E voa… voa por continentes ou simplesmente bairros. Voa da cadeira até a cama. Voa e pousa sobre o travesseiro. Abraça um, abraça outro – é difícil ser o mesmo, porque ela continua voando. Perspectivada que só. Louca que só. Reticente que só.

Gap

Posted in Blueness, Redness on December 11, 2008 by heaver

I hoped one of them would say ‘hi’. At first I could say I was expecting at least one of them, or both, to do so, but the truth is that I was hoping. As you can imagine, none did. It’s almost like they have an agreement between themselves. They didn’t say a single word all day. One vanished quickly, for my torture. And the one who remained just ended up torturing even more, silently. They’re specialists, both of them.
I don’t have much to say.
We’re all white again, in need of some contrast, saturation. I’d love colors, but right now… Right now I’m learning to enjoy my black & white moments.

Vozes

Posted in Blueness on November 20, 2008 by heaver

E nada morreu, absolutamente! Nem de um lado, nem do outro. As coisas dormem, ficam dormindo – eu bem queria que este sono durasse mais e mais -  mas chega um momento em que a voz…

A voz não cabe mais dentro dela. A garganta, as cordas vocais, todos os obstáculos esfalfados, arranhados, doloridos; nada mais importa pra ela. Ela berra. Não se importa com os vizinhos, danem-se eles! Nada mais importa, só aquela voz… que não se aguenta mais em lugar algum, não quer aconchego nenhum que não os ouvidos da outra.  Os ouvidos e o coração. A pulsação, o sangue, os cabelos, o suor. A outra por inteiro. Vai comê-la viva, sem piedade. Fodam-se os outros no caminho!
Solta essa vagabundinha que deu pra andar de mãos dadas com você. Você é minha. Só minha. Essas mãos são minhas, o seu suor é meu. Agora eu grito sim, grito, não tenho mais vergonha, nem dúvida. Já cansei de me enganar. É você mesmo que eu quero. Não quero ele, não quero ela. Quero você, a sua voz sussurando nos meus ouvidos aquele bando de elogios que você ousava me escrever. Quero os teus dentes mordiscando a minha pele sem parar. Quero você sem nada. Quero você, porque você ousou conseguir esse espaço dentro de mim. Teve a audácia de tomar a minha cabeça por meses, anos, sempre. Você, pequenina desse jeito, inocente desse jeito, cega desse jeito. Ainda é a pessoa mais… mais… não dá, não funciona com palavras.  E que ninguém ouse encostar em você. Essa vagabundinha, tira ela da sua vida. Aquele outro, também não deixa chegar perto. Não se mete com nada, com ninguém mais além de mim. Te amo.

À Tarde

Posted in Golden Mirror, Redness on October 7, 2008 by heaver

Andam pela rua em listras e linhas, andam pela rua nublada. Mas também, nublada só a rua, porque elas são só sorrisos. Sorrisos, risos, até gargalhadas. Continuam andando, hesitam, atravessam, pensam que vão morrer mas sabem que não vão; só risos. Planejam, planejam, planejam. Idéias diversas, besteiras, coisas sérias. Um momento cinza que é todo colorido. Chove até, mas o que é a chuva pra elas? Nada, se não os acentos errados que escrevem nos nomes das pessoas caindo em forma de água. Parece loucura, né? São loucas mesmo, mas há até quem bata palmas pra elas. Já ouviram de tudo, hoje até cantaram, são motivo de festa. Já falei delas aqui; farsantes, criadoras. Não cansam de se reinventar e inventar os outros. Rever conceitos, criar, nos colocar em cheque-mate. Ah, essas criaturas magnetizadoras dos nossos olhares… Filhas da puta! Anjos! Andam pela rua em listras e linhas, andam pela rua imortalizadas nos olhares dos passantes. No silêncio ou nos gritos, de unhas feitas ou não. Inesquecíveis, contagiosas, contagiantes.

Posted in Redness, Yet unsorted on September 30, 2008 by heaver

Não vejo graça em ser, se estar não é ao seu lado. Me dei conta disso hoje, quando dirigia de volta pra casa, enquanto as mais pesadas das lágrimas escorriam dos meus olhos, pelo simples fato de você não estar mais naquele carro comigo. E me perguntava “Por que é que você está chorando, meu deus?!”, e a resposta eram mais lágrimas. Escorriam lentamente, eu tentava fazê-las parar, não adiantava. Vim chorando durante todo o caminho. Ainda me perguntava o porquê de estar chorando, “ora, estamos felizes, nos gostamos, estamos dando muito certo”… ou é um severo desequilíbrio meu, ou a felicidade acarreta lágrimas.
Saudades de ontem à noite, você em meus braços, eu nos teus – éramos um só. Dois corpos formando uma unidade, a ponto de eu não saber dizer se o coração que eu sentia bater ali no meio era meu ou era seu. Saudades de quando minhas mãos deslizavam por entre as suas pernas, tímidas, corajosas. Saudades da tua pele macia acolhendo as minhas mãos fervorosas. Mãos que nunca vão se cansar de você, dedos que nunca deixarão de passear por entre os seus cabelos, seus seios e curvas, planícies e abismos.
E só pra você eu falo coisas de todos os tipos, sem medo, sem vergonha. E tenho certeza que nós vamos fazer o melhor sexo! O melhor café da manhã e a melhor morte. A melhor história de vida, a melhor trilha sonora. Quero ouvir os seus suspiros, quero me molhar.
E por que é que eu estava chorando, então?

Porque é uma merda, realmente, saber que sempre existe algo mais a ser dito, e sabe-se lá por que não deixá-lo sair de uma vez! Aí a gente enche, sente demais, na pele, na carne, até que explode. Tive vontade de me render às lágrimas, mas estas se renderam a mim num momento de “Peraí, porra!

Arranca esse nó da tua garganta e não deixa ela se enroscar de novo. Grita quando for pra gritar; por acaso já se arrependeu por isso antes? Não, né? Eu sei que não. Não vale a pena se afogar em lágrimas. Se é pra morrer, que morra de orgasmo, overdose… Morra se acabando, se jogando. Por ela não é suficiente. Por ela, mas com ela.

É, linda. Você também deixou seu perfume no meu travesseiro. Deixou seu gosto na minha boca, seu prendedor de cabelo no meu punho, seu calor meio molhado nos meus dedos. Se deixou, se perdeu em mim. Achei graça quando me dei conta de que estava lendo mentalmente meus próprios textos com a sua voz. É você intensamente na minha idéia, é você por inteiro. É abdicar de mim pra sentir você primeiro.

Eu rastejo sim. Rastejo e sei que é bom. Não digo necessário sempre, mas sim, necessário, sempre. Muitos me julgam, põe à frente de qualquer coisa o orgulho, me rotulam idiota. Mas eu continuo rastejando e me deleitando, pois só quem rasteja tem ângulos privilegiados de sua musa. Digo, ver por debaixo dos panos mesmo. E ao bom rastejante sempre é dada uma promoção: ela vai te elevar, te botar no céu. E a amplitude pela qual você já se aventurou te dá liberdade de se colocar na posição ‘olho no olho’ nas horas sérias, em qualquer hora.

Ora, eu rastejo sim. Não só porque ela é o que é, mas porque eu mereço o melhor que a educação no chão pode me proporcionar. Nós vamos fazer o melhor sexo! A nossa história vai vingar. Somos um, somos dois. Somos um de dois. Um derramamento de idéias, sentimentos, sensações… ou líquidos mesmo. Um derrame, uma alucinação. Uma gota d’água, de sangue, um impulso. Um pulso, um estalo, um ai!, um orgasmo.