Viúva dos sonhos em carmim, ela não mais lamentava todas aquelas perdas. Tudo que era vermelho ela deixou se misturar ao sangue, que escorreu todo das veias do tempo. A pele agora lhe era murcha e cheia de cicatrizes. Havia ainda loucuras do passado, mas todas as suas psicoses ardiam sem propósito, como uma chama que se extingue pouco depois de ter sido acesa. Do vermelho ela não conseguia mais distinguir o que era verdade e o que era mentira. Na verdade, não fazia mais a mínima diferença. A página agora está em branco. Não é o branco frio, vazio do passado, apesar de serem essas as condições atuais em que vive. Frio e vazio, mas o coração lhe esquenta seguramente. Ela dorme intranquila à noite, durante o dia os passos sempre descoincidem dos seus outrens, que vagam por outras ruas, outras estradas, longas distâncias. Com olhos perdidos na multidão ou no vão entre suas míseras paredes ela só pensa no amor que lhe foi levado dos olhos. Era de todos o mais correspondido. Viveu tangível e tangente ao seu lado sempre que pôde, mas agora a vida lhe torturava. Tempo e distância são grandezas ridículas comparadas ao meu amor por você! – dizia ela ao vento, sem nem ter certeza do que poderia de fato ser considerado uma grandeza. Ela enlouquecia mais e mais a cada nota musical das trilhas sonoras de sua solidão.
Pediu a palavra, e esta lhe é concedida.
Sinceramente é o que mais me faz feliz nesse caos; o brilhar dos teus olhos verdes que eu tanto sinto falta. Finalmente um amor que eu mereço. Eu sei que volta, mas também sei que ainda vou sofrer por estar longe.
Os medos das pessoas são engraçados, né? Uns têm medo de serem engolidos, outros de não serem. Mas você, gracinha, não entendo qual é o teu medo. Sempre me pergunto como pode alguém depositar tanta confiança em outrem, e o teu medo vem firme em posição de resposta. Toda a sua fragilidade pesa, e eu dissimulo, faço pesar em segundo plano. Meu passado já teve vários tons, eu já aprendi por experiência que as cores se assemelham aos sons, e em meio a tudo isso se perdem as minhas memórias. Tudo se resume a doenças, que são graves por serem agudas, e estão lá. Na interseção, onde uma coisa vira outra, nesse lugar pra onde eu te puxo com força agora e te digo “fica bem!”. É daqui que nasce o presente. Sim, estás certa se percebes que me resta a frustração de não ter ido mais fundo nos mares vermelhos em que velejei, mas eu juro, passou. Eles foram bons em me deixar ir. Se volta o vermelho, não é flamejante. É fosco, e você, ora, vida, eu te reconheço! Hoje eu te digo com toda a firmeza e honestidade que cada pulsar do meu coração é por ti. No que concerne o corpo e a alma, o meu mais sincero desejo é fazer-te feliz. Porque eu fui, continuei, sem o azul e sem o vermelho, mas sem você eu não existo.
Eu vou dissimular pra sempre, eu vou fazer a tua mentira virar verdade. Eu vou, sem medo, egoísta que só. Você que se renda, você que se entregue.
E fez a festa. Noivou ao sereno de um dia frio e comum, em meio a pessoas desconhecidas, pouco importantes, ridículas. Bebeu do que havia de mais pobre, nem sequer comeu. Música foram as risadas, as palavras declaradas ao vento, e até mesmo o silêncio entre elas. Se entregou aos braços de quem lhe fazia feliz. O anel era dos mais simples anéis de prata, porém o sorriso era dos imensuráveis, jamais visto, precioso. Fez jus às declarações de amor durante trinta dias a fio, agora permanece só, no frio, no vazio, à espera de que o amor e a palavra lhe retornem à posse.

