Archive for the Golden Mirror Category

Desvela-te, noiva!

Posted in Golden Mirror, Redness, Warm Whiteness on August 1, 2009 by heaver

Viúva dos sonhos em carmim, ela não mais lamentava todas aquelas perdas. Tudo que era vermelho ela deixou se misturar ao sangue, que escorreu todo das veias do tempo. A pele agora lhe era murcha e cheia de cicatrizes. Havia ainda loucuras do passado, mas todas as suas psicoses ardiam sem propósito, como uma chama que se extingue pouco depois de ter sido acesa. Do vermelho ela não conseguia mais distinguir o que era verdade e o que era mentira. Na verdade, não fazia mais a mínima diferença. A página agora está em branco. Não é o branco frio, vazio do passado, apesar de serem essas as condições atuais em que vive. Frio e vazio, mas o coração lhe esquenta seguramente. Ela dorme intranquila à noite, durante o dia os passos sempre descoincidem dos seus outrens, que vagam por outras ruas, outras estradas, longas distâncias. Com olhos perdidos na multidão ou no vão entre suas míseras paredes ela só pensa no amor que lhe foi levado dos olhos. Era de todos o mais correspondido. Viveu tangível e tangente ao seu lado sempre que pôde, mas agora a vida lhe torturava. Tempo e distância são grandezas ridículas comparadas ao meu amor por você! – dizia ela ao vento, sem nem ter certeza do que poderia de fato ser considerado uma grandeza. Ela enlouquecia mais e mais a cada nota musical das trilhas sonoras de sua solidão.

Pediu a palavra, e esta lhe é concedida.

Sinceramente é o que mais me faz feliz nesse caos; o brilhar dos teus olhos verdes que eu tanto sinto falta. Finalmente um amor que eu mereço. Eu sei que volta, mas também sei que ainda vou sofrer por estar longe.
Os medos das pessoas são engraçados, né? Uns têm medo de serem engolidos, outros de não serem. Mas você, gracinha, não entendo qual é o teu medo. Sempre me pergunto como pode alguém depositar tanta confiança em outrem, e o teu medo vem firme em posição de resposta. Toda a sua fragilidade pesa, e eu dissimulo, faço pesar em segundo plano. Meu passado já teve vários tons, eu já aprendi por experiência que as cores se assemelham aos sons, e em meio a tudo isso se perdem as minhas memórias. Tudo se resume a doenças, que são graves por serem agudas, e estão lá. Na interseção, onde uma coisa vira outra, nesse lugar pra onde eu te puxo com força agora e te digo “fica bem!”. É daqui que nasce o presente. Sim, estás certa se percebes que me resta a frustração de não ter ido mais fundo nos mares vermelhos em que velejei, mas eu juro, passou. Eles foram bons em me deixar ir. Se volta o vermelho, não é flamejante. É fosco, e você, ora, vida, eu te reconheço! Hoje eu te digo com toda a firmeza e honestidade que cada pulsar do meu coração é por ti. No que concerne o corpo e a alma, o meu mais sincero desejo é fazer-te feliz. Porque eu fui, continuei, sem o azul e sem o vermelho, mas sem você eu não existo.
Eu vou dissimular pra sempre, eu vou fazer a tua mentira virar verdade. Eu vou, sem medo, egoísta que só. Você que se renda, você que se entregue.

E fez a festa. Noivou ao sereno de um dia frio e comum, em meio a pessoas desconhecidas, pouco importantes, ridículas. Bebeu do que havia de mais pobre, nem sequer comeu. Música foram as risadas, as palavras declaradas ao vento, e até mesmo o silêncio entre elas. Se entregou aos braços de quem lhe fazia feliz. O anel era dos mais simples anéis de prata, porém o sorriso era dos imensuráveis, jamais visto, precioso. Fez jus às declarações de amor durante trinta dias a fio, agora permanece só, no frio, no vazio, à espera de que o amor e a palavra lhe retornem à posse.

Um salto, um sobressalto

Posted in Golden Mirror, Yet unsorted on June 13, 2009 by heaver

A marca no pescoço era de outrem. Os beijos, os carinhos, o corpo. Era tudo muito bom, era como se do completo e absoluto repente todos os problemas se lhe esvaíssem da consciência e ela ficasse em paz. O colorido já não vibrava mais na frequência do vermelho; era tudo mais claro, mais leve e mais pacífico, mas de fato, paz ali não havia nenhuma. Medos, um turbilhão de medos. Medos brancos, medos lindos, alguns doces, outros amargos. E as certezas? Será que elas existem mesmo ou sou só eu inventando? E se eu puder inventar pra sempre? E se certezas não importarem nada? Eu quero é saber das vontades! Quero mais é que elas se concretizem! Eu sinto tudo em sintonia, os beijos, as mãos, os dizeres, a reciprocidade, mas também sinto esses medos; eles estão pairando no ar e ora! não deixam de estar em mim também. Talvez seja a parte mais horrível da nossa história toda, admitir que temo tudo o que temo.Nunca tive grandes problemas em me atirar no sentimento, mas isso não exclui o medo, que por sua vez não deixa de gerar lágrimas. Mas pára! Eu me digo em voz alta Pára! Não pensa que é pior. Vive, vive sem se importar pois tudo isso é uma grande confusão; Se eu penso, eu penso em medo, eu penso no que um dia foi vermelho, no que foi palco e desculpa pra eu me escancarar pra quem importa, penso e não entendo nada, não entendo o que aconteceu, não entendo as pedras que o novo põe no velho, não entendo o que está acontecendo. Aí eu abstraio, procuro viver. E na minha mente só restam as mãos, os beijos, os sussurros…

Psicose I

Posted in Golden Mirror, Redness, Yet unsorted on April 21, 2009 by heaver

- Teve delírios – disse o médico a dois amigos que acabavam de chegar. – Passou a noite delirando, só dormiu de vez lá pelas quatro.

Era como se nada que fosse dito pudesse dar cabo da dúvida transbordante no olhar dos recém chegados. O mais alto, depois de algum tempo de silêncio, finalmente se recompôs a ponto de fazer uma pergunta.

- Que tipo de delírios?

- Balbuciou coisas ininteligíveis, falou de homens importantes da história… e sangue. – a dúvida preencheu o olhar do médico ao pronunciar essa última parte.

- Sangue?

- Sangue…

- Que sangue? Sangue de quem? – falava agora com certa impaciência o rapaz alto.

O médico não sabia como responder, afinal era sangue, ora, como ‘que sangue’? Eram só coisas de uma pessoa doidivana, por que eles dariam tanta importância a devaneios? Mas ele ficava nervoso ao perceber que ele mesmo estava se questionando, ele também queria saber, ele também estremeceu ao ouvir longos discursos sobre sangue durante a noite. Estava certo de que não era só sangue em geral; tinha dono, ou dona.

- Mas afinal, qual é o diagnóstico? – perguntou o mais baixo, que havia se mantido em silêncio e dúvida até então.

- Febre. Febre das mais altas. Justifica os delírios. As causas podem ter sido diversas, é difícil dizer quando não se tem meios para avaliar… – disse isso e saiu, quase como quem quer evitar mais perguntas incômodas. Deixou os dois no quarto.

Eu ouvia tudo em silêncio, fingia dormir, não queria encarar ninguém. O máximo de tolerância era a parede rachada na minha frente. Era bom fixar o olhar na rachadura e me ausentar do mundo, tentando descobrir por que é que a parede estaria rachada bem ali. O prédio certamente já havia se movido muito, era uma construção bem antiga. Será que a qualquer momento tudo podia desabar? Quem estaria em casa no momento da queda? Quem chamaria socorro? Alguém sobreviveria?

- Ao menos parece bem agora.

- É bom que durma bastante.

A conversinha dos meus amigos preocupados me enchia de raiva. Eu queria estar só. Por um instante pensei em levantar aos gritos, “Fora! Fora! Deixem-me só! Saiam!”, mas o impulso perpassou rápido demais e eu não me ative a ele enquanto pude. Tudo que eu queria era que eles calassem a boca, se pusessem porta a fora. Queria pegar o meu caderno no fundo do armário e anotar “beautiful words, lady” e deixar que o resto viesse à minha mente. “How about acting on them?” parecia uma boa continuação. Faltava raiva, faltava uma lâmina bem afiada acariciando aquela pele. Faltava sangue! Faltava o sangue!

Será que eu tinha tido delírios mesmo? Seria isso agora o delírio voltando, se apossando de mim?

- É melhor que vocês esperem aqui fora, pode ser que demore a acordar – disse o médico colocando a cabeça para dentro do quarto. – Vamos, venham. Vou lhes servir um chá.

Foram.

Era delírio, era delírio isso agora. Porque quando eu ia dormir, ora, eu queria tanto abraçar alguém! Eu ia dormir, eu mudava de opinião. A raiva ia embora, eu queria ela nos meus braços sim, era só o que eu queria. Mas era delírio, era eu delirando novamente! Cheguei a desejar encontrá-la à beira da morte no meio da rua, para que eu pudesse tomar conta dela, salvá-la, carregá-la, tê-la em meus braços mais uma vez. Eu queria ela morrendo. Pensei em morrer eu, mas não tenho certeza de que ela faria algo por mim. Era melhor que ela estivesse desfalecendo. Cheguei a confabular com o lado sujo da minha moral como seria o jeito ideal de fazer tudo aquilo virar verdade, mas aí eu já estava quase acordando, dormindo, acordando outra vez. E quando a luz do sol invadia o quarto, eu colocava os pés no chão, a raiva voltava. A vontade de sumir, voltar com lâminas, arrancar sangue. Seria bonito, estético, colocar o “FIM” em grandes letras de sangue naquela parede onde deixávamos bilhetinhos.  Ri.

“Sangremos juntas!”

Posted in Golden Mirror, Redness on February 24, 2009 by heaver

Devia ser ódio ou algo parecido. Talvez amor, não se sabe ao certo. Mas alguma coisa de fato fazia as duas se revelarem das mesmas cores, e a um só tempo. Em silêncio absoluto, distantes; porém em uma sintonia sem igual. Nem se sabe se elas próprias sabem. Ora, mas é claro que sabem! Uma delas de vez em quando dá um grito “sangremos juntas, então!“, e a outra compreende muito bem – sente muito bem. Uma vez até ousou descer do salto, confessar as próprias dores, mostrar as feridas, mas acabou correndo. É esse o tipo de coisa que incomoda a nós, os mais vividos. Se elas soubessem o quanto elas merecem se entregar… se elas soubessem o que é que faz tudo sair tão igual, tão vívido, tão…
Sangremos juntas!” – outra súplica que se perde na saída da garganta, outra noite que se passa sem gosto, sem sentido.
Sangrem juntas sim, antes que o sangue escorra-lhes todo ralo abaixo. Sangrem e não se iludam com o fechar das feridas – o que está escrito em cicatrizes não vai embora. Sangrem juntas e sem medo, afinal o sangue é o que a vida lhes tem a oferecer de bom.

Reticências da noite

Posted in Golden Mirror on December 17, 2008 by heaver

Eis mais uma força que acorda. Ou que simplesmente não foi dormir. Mas é como se tivesse acordado, mesmo. É, acordou. É ela, a boa e velha, ela mesma. Acordou depois de muito tempo, está com aquela cara de sono ainda, e é de se imaginar que a voz seja aquela de quando a gente fala a primeira palavra depois de um bom sono. Voz. Acordou, e parece que se perde às vezes, mas essas vezes são tão pequenas e curtas, que ela nem precisa se dar o trabalho de se achar.
Como é bom, ela pensa, como é bom não fazer sentido algum. Sair assim loucamente botando pra fora tudo o que passa por dentro, com essa forma sem forma. Isso desse jeito bem seu, que determina esse conteúdo mais seu ainda.
Como é bom embalar o sono dos outros com pensamentos, desenhos, textos, loucuras, medos, vontades. Como é bom se perder numa frase.

Ser reticente para o mundo aí fora, essa é a especialidade dela. Mas aqui, na bagunça de pensamentos, nada é reticente… ou tudo… ou as reticências sempre conduzem a algum lugar mais alto. Alto? Depende do ponto de vista – e é aí que ela, mais uma vez, demonstra sua sapiência. É perspectivada, não veicula nada por si só. E voa… voa por continentes ou simplesmente bairros. Voa da cadeira até a cama. Voa e pousa sobre o travesseiro. Abraça um, abraça outro – é difícil ser o mesmo, porque ela continua voando. Perspectivada que só. Louca que só. Reticente que só.

À Tarde

Posted in Golden Mirror, Redness on October 7, 2008 by heaver

Andam pela rua em listras e linhas, andam pela rua nublada. Mas também, nublada só a rua, porque elas são só sorrisos. Sorrisos, risos, até gargalhadas. Continuam andando, hesitam, atravessam, pensam que vão morrer mas sabem que não vão; só risos. Planejam, planejam, planejam. Idéias diversas, besteiras, coisas sérias. Um momento cinza que é todo colorido. Chove até, mas o que é a chuva pra elas? Nada, se não os acentos errados que escrevem nos nomes das pessoas caindo em forma de água. Parece loucura, né? São loucas mesmo, mas há até quem bata palmas pra elas. Já ouviram de tudo, hoje até cantaram, são motivo de festa. Já falei delas aqui; farsantes, criadoras. Não cansam de se reinventar e inventar os outros. Rever conceitos, criar, nos colocar em cheque-mate. Ah, essas criaturas magnetizadoras dos nossos olhares… Filhas da puta! Anjos! Andam pela rua em listras e linhas, andam pela rua imortalizadas nos olhares dos passantes. No silêncio ou nos gritos, de unhas feitas ou não. Inesquecíveis, contagiosas, contagiantes.

Daylight punishments

Posted in Golden Mirror, Redness on September 25, 2008 by heaver

From where I was, nobody could tell if they were having sex or if it was just violence. Two souls in the most criminal motion there could be. Her silky skin would hit the bars of their cell so strongly; but from where I was nobody could hear a sound. It also wasn’t clear who was punishing who. Two souls in harmonic disharmony. You’d understand it… if you could only feel it… you’d do the same. You’d fall for the same beauty, you’d swallow the same words, blood, bloody words. It made my cigarette taste awful. It made my world take unexpected turns. It moved something within me.
The cold winds of night licked their aggressiveness, but it didn’t make a difference. Those were long lasting daylight punishments.

Inércia

Posted in Golden Mirror, Yet unsorted on September 6, 2008 by heaver

Espera por uma, espera por outra. Espera. Até onde a paciência é uma virtude?
Conta os méritos, ensina lições, se faz ouvir. Espera a uma, esperando outra. Faz, finalmente; mas depois espera mais um pouco. Duas, três horinhas. Espera que ela já vem. Mas a esperante dormiu, e agora resta esperar as longas horas de sono. Os esperados viram os esperantes, mas todos se esperam, independente da posição.
Já esperou demais, faz agora!
E quando tudo indica que não há nada mais a se esperar, fica cada uma no seu canto, esperando a outra tomar atitude.
“Ela vai se cansar de esperar por você” “Mas ora! Será que ela não pensa que eu também posso me cansar de esperar por ela?”
Espera só mais um pouquinho.
Espera, que já já eu termino de escrever….

Posted in Golden Mirror on August 16, 2008 by heaver

De uma certa terça-feira.
Sentou no banco, chocada, num misto de graça e terror. O prazer das boas notícias anteriores abalado até a nulidade. Ficou ali sentada esperando uma alma boa, um confidente, um alguém, mas por fim achou melhor guardar para si. Levantou, foi-se. Agora ela me invoca; acha que meus 200 anos de senilidade podem lhe prestar algum favor. Insisto em lhe dizer que não há razão que apague por completo uma paixão. Não adianta dizer nada que faça sentido. Não creio que ela me escute muito bem nesse momento. Efeito do choque.
O motivo do choque? Um garoto, uma confissão, um desabafo… que acabou por abafar um dos segredos que ela queria que escapasse. Sorte a do garoto; sorte do coração dele.

Do resto da semana.
Ela engoliu seu segredinho e os muitos volts que a atormentaram naquela manhã. Digeriu todo o caos que se fez cosmos e agora se nutre do silêncio. Se olhou em terceira pessoa no espelho que reluz o dourado, rapidinho, não se demora nessas coisas! Tomou atitudes e esporros. Desaprendeu tudo que a minha senilidade já tinha ensinado. O garoto da terça-feira? Continua sendo também o da segunda, quarta, quinta e sexta; ela age com cuidado. Depois dessa, ela se vestiu em isolante e prometeu nunca mais se chocar com a ingenuidade de menininhos.

Esperança? Certeza? Coisas não tão futuras assim…

Posted in Golden Mirror, Redness on July 6, 2008 by heaver

Word Up!

Se joga, garota! Se joga, que as estrelas estão do teu lado. As cores, os tons diversos, tudo a seu favor. Lê tudo de novo, as tuas palavras, as palavras alheias. Escuta quem tá longe, e escuta quem tá dentro de você. Se joga! Puxa pela mão, leva pro canto, pro meio, pro nada que é tudo. Lê tudo que só pode ser lido nos olhos. Provoca. Pergunta, responde, extorque, devolve. Aproveita, porque você sabe que pode. Ah, se pode. Além de ter créditos (não negue que já se aproveitaram de ti), mentiras não são contadas a esmo, nem palavras são cuspidas para nada. O interesse move tudo, não move? Que mova corpos hoje!

E o brilho naqueles olhos? E a má educação? E o mau comportamento?

Vai, e vá de cabeça mesmo! Já teve motivo de arrependimento?

São tantas coisas, mas nada que eu permita esvair-te-lhe da consciência.

E lembre-se que surpresas agradáveis são de fato agradáveis.

Diving in…

Porque eu quero te tomar pelas mãos e te segurar com os olhos. Olhos, que finalmente são a janela, a porta, a página. Creio que já não esteja mais em branco, e é isso que eu quero ler. Quero ler a cor, a intensidade, até a marca da tinta. Deixa eu te olhar. Deixa, que teus olhos te explicam. Espero que me expliquem, também, como é que se fica mestre nessa arte de entorpecer o dentro dos outros pelo próprio fora. Como é que a forma determina o tal conteúdo? Como eu faço pra beber dele?

Como é que eu te digo que eu quero mais, e que seja a feita a vossa vontade? Como é que eu te digo que estou sem cinto-de-segurança e estou de fato querendo bater? Como é que eu pergunto se eu posso? Como é que eu me faço poder?

É no te tomar pela mão, segurar com os olhos, dizer…?

Aparece, linda, que eu quero te ver.