E tem horas que a gente olha pra elas e não sente aqueles frios, calores, dores. Simplesmente não vem.
A tela em branco também não convida a nada. Os dedos batucam, cansam, dormem. Tentei me render às outras artes, mas fiquei em branco, no frio, na luz fria.
Tentei olhar pra elas de novo, pras duas criaturas. Uma diferente da outra, ambas lindas. Em uma vi convite, na outra vi repulsa, mas agora já não consigo distinguir em quem vi o que. Uma igualzinha à outra.
Mas está tudo tão branco hoje, e é difícil começar do zero. Talvez seja este o ponto em que as pessoas se perdem. Esquecem que o branco não é nada menos que a mistura de todas as cores – ou pelo menos foi isso que me disseram quando eu era criança; tenho certeza que já ouviste o mesmo. Verdade ou não, não importa. Se eu quiser que seja verdade, pronto, é. Nada mais natural e humano do que gostar de ser ludibriado. Ludíbrio ou não, passemos a encarar o branco como um mafuá de cores. Está tudo aí, diante dos meus olhos, tão misturado que eu não sei quem convida e quem repele.
Olhei pras duas de novo. Não passam da mesma coisa, talvez o mesmo pedaço de massa, um mais harmonioso do que o outro, e eu não sei qual é qual. Dentes amarelados de nicotina – até o mesmo cigarro elas fumam! – sendo que uma espera pra morder, a outra costuma já ir mordendo de cara. Mas os papéis continuam se invertendo, e eu, já cansada de dizer – não sei quem é quem. Confidente, amiga, amante, amor da vida. Tintas da mesma marca. Podíamos fazer obras de arte, mas hoje estamos em silêncio.
- Ora, não me venha falar em silêncio, agora! Não era de tinta que estava falando?!
Era, sim. Mas o que eu gosto é do interlúdio, de onde uma coisa vira outra, de onde minha voz é pincel encharcado de tinta. Porque eu seguro com os olhos, vejo com os ouvidos, mas com a boca… ah, eu mordo, mesmo. Mordo, mancho, arranco gritos. Gosto disso, das fronteiras que não são fronteiras, do embaçado tipo sonho, em que um sentido responde por outro.
Será que elas merecem que eu corra atrás delas e olhe mais uma vez?
Não, não, espera um pouco. A pergunta não devia ser essa. Aliás não devia nem haver pergunta. Respira fundo e tenta outra vez. Asas à reflexão, vamos lá.
Elas são tinta, não são? É com elas que se faz arte. Arranca elas do mafuá branco, joga elas lá de novo, com força, com carinho, como lhe for conveniente. Alma de artista quem tem é você. Alma, corpo… olhos, mãos, dedos! E tudo isso se suja na hora de criar. Vá lá, se prepara, porque pra gente que cria, não é novidade que há muito mais transpiração do que inspiração nesse processo.
Ridículas, as duas. Amáveis.