Penso, logo hesito.

Não interessa o motivo da minha apatia. Sim, é apaticamente que dou as caras às paredes cor de gelo deste quarto. É sexta-feira mas chove. É sexta-feira e eu não vou lá tão bem assim. Não quis nem conseguiria aguentar pessoas hoje. Tive crises de pânico ao entardecer. Penso que a vida não vai bem no que deveria ir, mas penso que é assim mesmo, não teria graça se viesse tudo pronto. Penso que sou uma negação nas minhas próprias lutas, nas minhas próprias vontades. Sei que é por falta de organização, agora e desde muito tempo. Sei o que está errado, mas um oceano negro de frustrações faz com que seja difícil achar pérolas de confiança para recomeçar, por mais que haja vontade. Vontade! Mas que vontades são essas? Será que vão passar? – eu não deixo de me perguntar.  Eu queria ter o telefone de alguma linda mulher amassado na carteira, afinal é sexta-feira e chove. Eu queria não esperar por quem espero. Eu, que sempre fiz valer a minha palavra  sobre o quão vazio é o discurso do merecimento, digo agora: eu não mereço isso.

Este é um dos silêncios mais barulhentos dos que já fiz parte. Violinos como facas – eu sei que ressoa só aqui dentro – e a tua presença tão bem oferecida com as mais bonitas palavras, agora é nada. Você não é para mim, e eu já te confundo, a tua essência, o teu corpo. Você não está. Eu queria voltar ao passado, onde meus desejos combinavam mais com sangue, coisa que sempre achei estética. É isso! Meu passado tinha forma! Meu passado incitava! Por mais que eu seja doente, por mais que tudo fosse terminar em tragédia.

Eu queria um rompante de loucura me apertando os membros num átimo, eu queria ir consumar tudo isso. Assim como a tua falta de satisfação, de educação, de tudo me açoita, eu queria repentinamente dar adeus a tudo isso.

Foi a tua razão que te afundou, minha cara. É a minha razão que faz todas as vontades paralizarem agora. Sorte a sua. Sorte puramente sua.

One Response to “Penso, logo hesito.”

  1. que estranho acaso me fez parar nesse blog, nem queira saber, mas ontem à noite, tive essa mesma sensação que você.
    Mesmíssima. A diferença é que, para piorar, não só eu dependo de mim — e isso é pior ainda, saber que se está fazendo mal a outras pessoas, não só a si mesmo.
    E é uma sensação que não passa. Se disfarça durante os dias, muitas vezes se esquecedurante as noites — mas uma hora ou outra, sempre volta.

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