A música transmitia um certo calor; a viola espanhola, o violino, o tempo lento que regia os compassos. Eu não era eu ao queimar daquele fogo. Eu não estava ali para matar nem para morrer. Não queria que o famoso vermelho sequer interagisse comigo, apenas observasse. Mas o que exatamente?
Acordei.
Clássico – eu pensei. Falta o clássico. Em tudo. Desde o levar e trazer de rosas para as amadas até os roubos de casas e assassinatos.
E começa mais um dia em que minhas inspirações se resumem ao tormento. De uma maneira ou de outra eu sempre quis me extirpar desse mundo, mas algo me faz crer que quando os outros demonstram essa mesma vontade em relação a mim fingindo o contrário, as coisas pioram. Não gostaria eu de morrer no auge de um dia lindo, e sim apodrecer sem que ninguém soubesse, que o meu corpo se decompusesse antes que qualquer um pudesse reconhecer a minha face.
O porão da minha casa tem até bastante luz além da umidade. Vistos de lá os dias sempre são nublados, mas brancos. Cinzas e brancos. Quando vem a neve fina é ideal para pôr os pés fora de lá, afinal eu serei o único ser que o farei. Odeio as pessoas. Todas. Não me excluo. Não excluo as humanidades hipócritas que insistem em se colocar para fora de mim, ou mesmo as que ficam cá dentro, sufocando, suprimindo, matando.
Tenho fome. A comida fria que comerei só à luz também fria desse dia nublado não fará a mínima diferença. E talvez seja esse o clássico da vida real; o clássico querer e não ter, o clássico estar no caminho errado, o clássico viver no meio de solitárias multidões, o clássico querer matar, deixar-se morrer. A clássica prisão.

