De mais um dia ensolarado

A garrafa ainda está aqui, pela metade. Água, sim. Eu não estava com a mínima sede.
Fui, como se não me restasse nada mais na vida, como se fosse a salvação. “Vou comprar água”. Fui. Não olhei para ela até que estivesse com a garrafa na mão e o troco no bolso. Forcei uma cara de surpresa (que não sei se ficou tão óbvia graças aos óculos escuros – coisa que acabei achando boa) e ela um oi; certamente estava me espreitando com o olhar há algum tempo, porque os olhos de uma pessoa que está escrevendo não podem estar de prontidão dessa maneira. Sim, ela estava escrevendo. Atividade que lhe cai bem, eu só tiraria os óculos escuros, ficaria ainda melhor. Então éramos dois pares de óculos escuros lá pelo meio dia, uma hora da tarde. O clima agradável talvez tenha contribuído para a minha abordagem, também meio agradabilóide. São coisas desse tipo que me fazem detestar a luz do sol. Por que tem que brilhar assim? Nós vestimos nossos óculos escuros e eis a nossa proteção. Que venha o social! – Ora, que atitude débil.
Foi bom não terem cadeiras disponíveis. Permaneci de pé. Pude ver alguns movimentos dos olhos dela pra lá e pra cá por cima dos óculos, foi um bom ângulo. E eu já estava praticamente me afogando naqueles goles desnecessários, nervosos, sufocantes. Eu tinha pingos de repulsa por ela, mas tenho certeza de que não me demoraria muito se resolvesse inventar algum outro tipo de sede por ali – a sede por aqueles lábios. Não era um dia para derramamento de sangue, era um dia ensolarado e a única maneira de fazê-lo render seria esquecer do sol. E como se esquece do sol, minha gente? Só matando essas sedes…
Os lábios dela são carnudos, me lembro bem de como era bom demorar neles. Eu beberia galões de água para tê-los outra vez se demorando nos meus. É uma verdade ridícula, mas não deixa de ser verdade. E doentia. Mas o homem é um compêndio de doenças e eu não vejo motivo em esconder as minhas.
Eu via um resquício de felicidade transbordar dela, e isso me causava todo o bem e o mal que algo pode causar a alguém. Era bom me ter ali? Será que só eu sentia aquela sensação de incompletude, de coisas fora do lugar?
Tudo isso é muito difícil de esclarecer num dia de tanto sol. Preciso agir num dia negro, nublado, fechado ao extremo. Eu não teria desculpas para ir comprar água, mas o ímpeto seria o mesmo. Ela não teria porque vestir os tais óculos escuros, e mesmo que estivesse com as olheiras mais fundas, seria ridículo. Ela ia ficar elegante com roupas de frio, escrever ia lhe cair bem melhor, e se houvesse chuva… ela ia poder lembrar dos nossos momentos despedida-na-chuva.

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