Archive for May, 2009

Salivando…

Posted in Redness, Yet unsorted on May 26, 2009 by heaver

Um bilhete que dizia que estava melhor, imune, segura de si. Eu ri, mas eu ri, porque era de fato a melhor coisa que poderia ter me aparecido aos olhos. Foi por um acaso – um acaso forçado sim, mas um acaso, afinal eu nunca podia prever o que econtraria na caixinha de surpresas dela. Mas foi nesse acaso ocasionado por mim que eu encontrei a prova de que eu sou a insegurança dela. Agora que fui embora ela se sente recomposta e segura. A mim ela não sai ilesa. Eu sou o elemento que faz ela perder o controle, é a minha autenticidade que faz ela virar poeira. E toda a nossa história se resume em embasbacamento, perda de sentidos, tentativa de retomar o controle. Já ouvi isso de alguns, fato, já ouvi “é só mais uma tentativa dela de retomar o controle” – não me importava ao ponto de fazer análises, mas agora, com esse bilhetinho torpe, fato, parei e analisei. E ri, como os loucos doentes – como ela mesmo me chama aos sete ventos! Como será que ela ficaria me vendo rir doentia e sabiamente disso tudo? Com que intensidade será que os olhos dela flamejariam ao ver que nos meus cadernos os adjetivos são bem mais cruéis, e por ser assim, mais de acordo com a realidade? Qual seria a careta que o gosto da realidade provocaria no belo rostinho dela?

O que era pra ser amargo na minha boca acaba tendo o gosto mais doce e agradável que eu poderia esperar de você, minha cara. Entendo a necessidade de você se afirmar com um tapa na minha cara, mas isso só me prova o quão ridícula e indefesa você é. Eu gosto de você mesmo assim, suaria por horas com você na cama, ainda teria o desplante de sussurrar aos teus ouvidos “te amo, linda“, e te levaria ao êxtase para sempre sem questionar nada, sem questionar as tuas imbecilidades, as tuas infantilidades, o teu orgulho idiota e limitante, a tua máscara, a tua vontade de aparecer. Você é ridícula e imprestável – a não ser no sexo, de fato. Inclusive, por que não estás na minha cama agora? Me parece a única maneira com a qual podemos nos aproveitar – no sexo e nas conversas e cigarros depois dele. Você sai ganhando, afinal eu tenho muito mais a te acrescentar, minha bela. Ainda brindar com teu suor e teu sangue; teu prazer, meu prazer. Eu adoro a dor desses seus tapas de auto-afirmação. Eu vou rir de você até o fim da minha vida, eu vou rir até você acabar com a sua. Sim, tenho uma mente louca e olhos deveras doentes, porque apesar de tudo isso, ainda enxergo enorme beleza e potencial nessa sua sujeirada toda.

De mais um dia ensolarado

Posted in Redness on May 4, 2009 by heaver

A garrafa ainda está aqui, pela metade. Água, sim. Eu não estava com a mínima sede.
Fui, como se não me restasse nada mais na vida, como se fosse a salvação. “Vou comprar água”. Fui. Não olhei para ela até que estivesse com a garrafa na mão e o troco no bolso. Forcei uma cara de surpresa (que não sei se ficou tão óbvia graças aos óculos escuros – coisa que acabei achando boa) e ela um oi; certamente estava me espreitando com o olhar há algum tempo, porque os olhos de uma pessoa que está escrevendo não podem estar de prontidão dessa maneira. Sim, ela estava escrevendo. Atividade que lhe cai bem, eu só tiraria os óculos escuros, ficaria ainda melhor. Então éramos dois pares de óculos escuros lá pelo meio dia, uma hora da tarde. O clima agradável talvez tenha contribuído para a minha abordagem, também meio agradabilóide. São coisas desse tipo que me fazem detestar a luz do sol. Por que tem que brilhar assim? Nós vestimos nossos óculos escuros e eis a nossa proteção. Que venha o social! – Ora, que atitude débil.
Foi bom não terem cadeiras disponíveis. Permaneci de pé. Pude ver alguns movimentos dos olhos dela pra lá e pra cá por cima dos óculos, foi um bom ângulo. E eu já estava praticamente me afogando naqueles goles desnecessários, nervosos, sufocantes. Eu tinha pingos de repulsa por ela, mas tenho certeza de que não me demoraria muito se resolvesse inventar algum outro tipo de sede por ali – a sede por aqueles lábios. Não era um dia para derramamento de sangue, era um dia ensolarado e a única maneira de fazê-lo render seria esquecer do sol. E como se esquece do sol, minha gente? Só matando essas sedes…
Os lábios dela são carnudos, me lembro bem de como era bom demorar neles. Eu beberia galões de água para tê-los outra vez se demorando nos meus. É uma verdade ridícula, mas não deixa de ser verdade. E doentia. Mas o homem é um compêndio de doenças e eu não vejo motivo em esconder as minhas.
Eu via um resquício de felicidade transbordar dela, e isso me causava todo o bem e o mal que algo pode causar a alguém. Era bom me ter ali? Será que só eu sentia aquela sensação de incompletude, de coisas fora do lugar?
Tudo isso é muito difícil de esclarecer num dia de tanto sol. Preciso agir num dia negro, nublado, fechado ao extremo. Eu não teria desculpas para ir comprar água, mas o ímpeto seria o mesmo. Ela não teria porque vestir os tais óculos escuros, e mesmo que estivesse com as olheiras mais fundas, seria ridículo. Ela ia ficar elegante com roupas de frio, escrever ia lhe cair bem melhor, e se houvesse chuva… ela ia poder lembrar dos nossos momentos despedida-na-chuva.