Naquele Momento ou Às Moscas
Sentei ao pé da escada, passavam pessoas e pessoas e rápido e rápido. Moscas ao meu redor – estava do lado da lata de lixo. Ri com ironia, um riso curto, e pus-me a ler Dostoiévski. O trânsito de pessoas era um estímulo para minha concentração; o que as moscas atrapalhavam era desfeito pelo desprezo dos passantes. Não sei quantos me lançaram algum olhar, mas o desprezo era sentível, mesmo meus olhos não desgrudando do livro. A situação toda era uma ironia – eu, abaixo dos homens, em meio às moscas, lendo notas que retratavam praticamente uma vida inteira vivida assim. Eu ria de vez em quando, eu ria disso… Não era engraçado, eu ria de raiva. A raiva em forma de riso já não era novidade para mim. Eu ri de raiva das companhias dela – que sabem muito bem quem sou e nem sequer me olham nos olhos! Eu ri, e com aquele mesmo riso podia matar alguém. Mas a verdade é que naquele momento não consegui matar nenhuma mosca sequer. Eu virava a página, eu dava outro tapa no ar, eu ria. De repente o coração me pulou até a boca, e me dei conta que o canto dos olhos tinham a avistado. Tremi – como se não bastasse comecei a tremer! Uma pilha de nervos, ao pé da escada, do lado da lixeira, cercada de moscas. Era bem o que eu era naquele momento, era só o que eu era naquele momento. Ela, que fora sempre tão visível aos meus olhos, tinha se perdido. Eu não podia olhar, não era certo abandonar meu Dostoiévski por um milisegundo de prazer. Ela estava sumindo, e tomei outro susto ao perceber que estava a poucos metros de mim. Conversava, as companhias ignóbeis – não me importa do que falavam… e a verdade é que qualquer companhia seria ignóbil naquele momento. Era assustador de fato! Eu sempre a via, sempre! Tive dificuldade de a distinguir… era muito assustador. Demoramos assim – eu no susto, ela na trela – por longos minutos. Eu ainda tremia e me odiava por isso. Passados mais alguns minutos, senti que ela se aproximava. Me recusei a levantar os olhos do livro até que sua mão se estendeu a mim num cumprimento… ordinário! Eu a detestei por isso, fechei a cara; minha expressão não foi nada amigável, eu senti. Tentei mudar, mas desisti. Respondi às perguntas mais ordinárias com esforço – era penoso ter que encarar perguntas que ela perguntaria a qualquer imbecil. Tudo bem, naquele momento eu estava lá no meio das moscas. Será que ela consegue entender que eu me recuso a assumir esse papel de ser ordinário? Raiva, risos, moscas, chão. Ela não entende nada, ela diz que entende, ela não sabe de nada. Ela não faz esforço algum para nada. Só Deus sabe o quanto odeio a posição ordinária. Raiva. Ela insiste nisso, e me dá raiva – não dela, mas de não poder realizar meus desejos. No dia anterior, por exemplo, tive plena convicção de que o melhor a ser feito era lhe dar um abraço. Eu ia lá e ia abraçá-la, ponto. Era o que falava com força dentro de mim, até o dado momento – esse maldito momento, de estar ao pé de uma escada fria, às moscas. O momento em que somos transformados num nada. Esse maldito momento, que há de se repetir, eu sei – a gente sempre sabe, ele há de se repetir enquanto nenhuma bomba explodir. Ela foi, subiu a escada. Fiz o que me restava – estapeei o ar, sem acertar sequer uma mosca.