Archive for April, 2009

Psicose I

Posted in Golden Mirror, Redness, Yet unsorted on April 21, 2009 by heaver

- Teve delírios – disse o médico a dois amigos que acabavam de chegar. – Passou a noite delirando, só dormiu de vez lá pelas quatro.

Era como se nada que fosse dito pudesse dar cabo da dúvida transbordante no olhar dos recém chegados. O mais alto, depois de algum tempo de silêncio, finalmente se recompôs a ponto de fazer uma pergunta.

- Que tipo de delírios?

- Balbuciou coisas ininteligíveis, falou de homens importantes da história… e sangue. – a dúvida preencheu o olhar do médico ao pronunciar essa última parte.

- Sangue?

- Sangue…

- Que sangue? Sangue de quem? – falava agora com certa impaciência o rapaz alto.

O médico não sabia como responder, afinal era sangue, ora, como ‘que sangue’? Eram só coisas de uma pessoa doidivana, por que eles dariam tanta importância a devaneios? Mas ele ficava nervoso ao perceber que ele mesmo estava se questionando, ele também queria saber, ele também estremeceu ao ouvir longos discursos sobre sangue durante a noite. Estava certo de que não era só sangue em geral; tinha dono, ou dona.

- Mas afinal, qual é o diagnóstico? – perguntou o mais baixo, que havia se mantido em silêncio e dúvida até então.

- Febre. Febre das mais altas. Justifica os delírios. As causas podem ter sido diversas, é difícil dizer quando não se tem meios para avaliar… – disse isso e saiu, quase como quem quer evitar mais perguntas incômodas. Deixou os dois no quarto.

Eu ouvia tudo em silêncio, fingia dormir, não queria encarar ninguém. O máximo de tolerância era a parede rachada na minha frente. Era bom fixar o olhar na rachadura e me ausentar do mundo, tentando descobrir por que é que a parede estaria rachada bem ali. O prédio certamente já havia se movido muito, era uma construção bem antiga. Será que a qualquer momento tudo podia desabar? Quem estaria em casa no momento da queda? Quem chamaria socorro? Alguém sobreviveria?

- Ao menos parece bem agora.

- É bom que durma bastante.

A conversinha dos meus amigos preocupados me enchia de raiva. Eu queria estar só. Por um instante pensei em levantar aos gritos, “Fora! Fora! Deixem-me só! Saiam!”, mas o impulso perpassou rápido demais e eu não me ative a ele enquanto pude. Tudo que eu queria era que eles calassem a boca, se pusessem porta a fora. Queria pegar o meu caderno no fundo do armário e anotar “beautiful words, lady” e deixar que o resto viesse à minha mente. “How about acting on them?” parecia uma boa continuação. Faltava raiva, faltava uma lâmina bem afiada acariciando aquela pele. Faltava sangue! Faltava o sangue!

Será que eu tinha tido delírios mesmo? Seria isso agora o delírio voltando, se apossando de mim?

- É melhor que vocês esperem aqui fora, pode ser que demore a acordar – disse o médico colocando a cabeça para dentro do quarto. – Vamos, venham. Vou lhes servir um chá.

Foram.

Era delírio, era delírio isso agora. Porque quando eu ia dormir, ora, eu queria tanto abraçar alguém! Eu ia dormir, eu mudava de opinião. A raiva ia embora, eu queria ela nos meus braços sim, era só o que eu queria. Mas era delírio, era eu delirando novamente! Cheguei a desejar encontrá-la à beira da morte no meio da rua, para que eu pudesse tomar conta dela, salvá-la, carregá-la, tê-la em meus braços mais uma vez. Eu queria ela morrendo. Pensei em morrer eu, mas não tenho certeza de que ela faria algo por mim. Era melhor que ela estivesse desfalecendo. Cheguei a confabular com o lado sujo da minha moral como seria o jeito ideal de fazer tudo aquilo virar verdade, mas aí eu já estava quase acordando, dormindo, acordando outra vez. E quando a luz do sol invadia o quarto, eu colocava os pés no chão, a raiva voltava. A vontade de sumir, voltar com lâminas, arrancar sangue. Seria bonito, estético, colocar o “FIM” em grandes letras de sangue naquela parede onde deixávamos bilhetinhos.  Ri.

O nada que eu já não sei o que é

Posted in Redness, Yet unsorted on April 18, 2009 by heaver

E de súbito uma frieza – como que a frieza dos assassinos – me surpreendeu. Era como se voltasse tudo ao nada. Era como se eu olhasse e nenhuma palpitação me viesse ao peito, nenhum calor, nenhum frio. Nada.
Uma sensação deveras surpreendente depois de tudo que tem se mostrado, tudo que tem se escancarado no meu rosto, no fundo dos meus olhos; mas confesso que já não é a primeira vez que se volta ao vazio. Já aconteceu no meio de julho passado – sim, julho! O mês que não me falha em trazer novidades. Nada tão forte quanto nesses últimos dias – sim, porque isso de agora já tem me durado alguns dias, mas uma inércia estranha. Agora ela se repete mais forte, vira vontade de ficar inerte, falta de ímpeto para sair da inércia ou mais! Um protótipo de ímpeto de virar as costas e fixar o olhar em algum defeito da parede, alguma lasca no chão, alguma mancha de tinta, qualquer coisa; qualquer coisa pra me distrair desse nada. Por que não ir embora? Tomar o caminho da rua. Passar sem que ninguém me aviste, sair pela porta afora, me enfiar no meio dos transeuntes, descansar ao som dos músicos de rua, andar sem rumo.
Não comparo essa frieza à frieza dos assassinos à toa. Agora, não sei se o que me açoita é a morte ou é o crime; Morreu? Ou será que obliterei com minhas próprias forças?

Ciclo básico

Posted in Redness, Yet unsorted on April 14, 2009 by heaver

Abril, a neve já devia estar derretendo, mas os flocos finos quase invisíveis ainda grudam no meu casaco preto quando saio na rua. Há dias em que o sol brilha sim; eu aproveito… até me lembrar que não gosto de sol. Não, não assim. Por mais que seja fraco ainda queima. O melhor sol é aquele que brilha quando estamos entretidos demais para perceber que ele está lá. Sendo assim eu rezo para que os flocos de neve engrossem. Consigo sorrir ao chegar em casa e sentir os inúmeros pontos gelados por minhas roupas, cabelo e rosto.

Mas é abril, a neve vai cessar de cair. A neve vai começar a derreter, e nossas calçadas tomarão aquele aspecto repugnante que todos detestam. Até que o maldito sol derreta tudo.

Naquele Momento ou Às Moscas

Posted in Redness on April 7, 2009 by heaver

Sentei ao pé da escada, passavam pessoas e pessoas e rápido e rápido. Moscas ao meu redor – estava do lado da lata de lixo. Ri com ironia, um riso curto, e pus-me a ler Dostoiévski. O trânsito de pessoas era um estímulo para minha concentração; o que as moscas atrapalhavam era desfeito pelo desprezo dos passantes. Não sei quantos me lançaram algum olhar, mas o desprezo era sentível, mesmo meus olhos não desgrudando do livro. A situação toda era uma ironia – eu, abaixo dos homens, em meio às moscas, lendo notas que retratavam praticamente uma vida inteira vivida assim. Eu ria de vez em quando, eu ria disso… Não era engraçado, eu ria de raiva. A raiva em forma de riso já não era novidade para mim. Eu ri de raiva das companhias dela – que sabem muito bem quem sou e nem sequer me olham nos olhos! Eu ri, e com aquele mesmo riso podia matar alguém. Mas a verdade é que naquele momento não consegui matar nenhuma mosca sequer. Eu virava a página, eu dava outro tapa no ar, eu ria. De repente o coração me pulou até a boca, e me dei conta que o canto dos olhos tinham a avistado. Tremi – como se não bastasse comecei a tremer! Uma pilha de nervos, ao pé da escada, do lado da lixeira, cercada de moscas. Era bem o que eu era naquele momento, era só o que eu era naquele momento. Ela, que fora sempre tão visível aos meus olhos, tinha se perdido. Eu não podia olhar, não era certo abandonar meu Dostoiévski por um milisegundo de prazer. Ela estava sumindo, e tomei outro susto ao perceber que estava a poucos metros de mim. Conversava, as companhias ignóbeis – não me importa do que falavam… e a verdade é que qualquer companhia seria ignóbil naquele momento. Era assustador de fato! Eu sempre a via, sempre! Tive dificuldade de a distinguir… era muito assustador. Demoramos assim – eu no susto, ela na trela – por longos minutos. Eu ainda tremia e me odiava por isso. Passados mais alguns minutos, senti que ela se aproximava. Me recusei a levantar os olhos do livro até que sua mão se estendeu a mim num cumprimento… ordinário! Eu a detestei por isso, fechei a cara; minha expressão não foi nada amigável, eu senti. Tentei mudar, mas desisti. Respondi às perguntas mais ordinárias com esforço – era penoso ter que encarar perguntas que ela perguntaria a qualquer imbecil. Tudo bem, naquele momento eu estava lá no meio das moscas. Será que ela consegue entender que eu me recuso a assumir esse papel de ser ordinário? Raiva, risos, moscas, chão. Ela não entende nada, ela diz que entende, ela não sabe de nada. Ela não faz esforço algum para nada. Só Deus sabe o quanto odeio a posição ordinária. Raiva. Ela insiste nisso, e me dá raiva – não dela, mas de não poder realizar meus desejos. No dia anterior, por exemplo, tive plena convicção de que o melhor a ser feito era lhe dar um abraço. Eu ia lá e ia abraçá-la, ponto. Era o que falava com força dentro de mim, até o dado momento – esse maldito momento, de estar ao pé de uma escada fria, às moscas. O momento em que somos transformados num nada. Esse maldito momento, que há de se repetir, eu sei – a gente sempre sabe, ele há de se repetir enquanto nenhuma bomba explodir. Ela foi, subiu a escada. Fiz o que me restava – estapeei o ar, sem acertar sequer uma mosca.