- Teve delírios – disse o médico a dois amigos que acabavam de chegar. – Passou a noite delirando, só dormiu de vez lá pelas quatro.
Era como se nada que fosse dito pudesse dar cabo da dúvida transbordante no olhar dos recém chegados. O mais alto, depois de algum tempo de silêncio, finalmente se recompôs a ponto de fazer uma pergunta.
- Que tipo de delírios?
- Balbuciou coisas ininteligíveis, falou de homens importantes da história… e sangue. – a dúvida preencheu o olhar do médico ao pronunciar essa última parte.
- Sangue?
- Sangue…
- Que sangue? Sangue de quem? – falava agora com certa impaciência o rapaz alto.
O médico não sabia como responder, afinal era sangue, ora, como ‘que sangue’? Eram só coisas de uma pessoa doidivana, por que eles dariam tanta importância a devaneios? Mas ele ficava nervoso ao perceber que ele mesmo estava se questionando, ele também queria saber, ele também estremeceu ao ouvir longos discursos sobre sangue durante a noite. Estava certo de que não era só sangue em geral; tinha dono, ou dona.
- Mas afinal, qual é o diagnóstico? – perguntou o mais baixo, que havia se mantido em silêncio e dúvida até então.
- Febre. Febre das mais altas. Justifica os delírios. As causas podem ter sido diversas, é difícil dizer quando não se tem meios para avaliar… – disse isso e saiu, quase como quem quer evitar mais perguntas incômodas. Deixou os dois no quarto.
Eu ouvia tudo em silêncio, fingia dormir, não queria encarar ninguém. O máximo de tolerância era a parede rachada na minha frente. Era bom fixar o olhar na rachadura e me ausentar do mundo, tentando descobrir por que é que a parede estaria rachada bem ali. O prédio certamente já havia se movido muito, era uma construção bem antiga. Será que a qualquer momento tudo podia desabar? Quem estaria em casa no momento da queda? Quem chamaria socorro? Alguém sobreviveria?
- Ao menos parece bem agora.
- É bom que durma bastante.
A conversinha dos meus amigos preocupados me enchia de raiva. Eu queria estar só. Por um instante pensei em levantar aos gritos, “Fora! Fora! Deixem-me só! Saiam!”, mas o impulso perpassou rápido demais e eu não me ative a ele enquanto pude. Tudo que eu queria era que eles calassem a boca, se pusessem porta a fora. Queria pegar o meu caderno no fundo do armário e anotar “beautiful words, lady” e deixar que o resto viesse à minha mente. “How about acting on them?” parecia uma boa continuação. Faltava raiva, faltava uma lâmina bem afiada acariciando aquela pele. Faltava sangue! Faltava o sangue!
Será que eu tinha tido delírios mesmo? Seria isso agora o delírio voltando, se apossando de mim?
- É melhor que vocês esperem aqui fora, pode ser que demore a acordar – disse o médico colocando a cabeça para dentro do quarto. – Vamos, venham. Vou lhes servir um chá.
Foram.
Era delírio, era delírio isso agora. Porque quando eu ia dormir, ora, eu queria tanto abraçar alguém! Eu ia dormir, eu mudava de opinião. A raiva ia embora, eu queria ela nos meus braços sim, era só o que eu queria. Mas era delírio, era eu delirando novamente! Cheguei a desejar encontrá-la à beira da morte no meio da rua, para que eu pudesse tomar conta dela, salvá-la, carregá-la, tê-la em meus braços mais uma vez. Eu queria ela morrendo. Pensei em morrer eu, mas não tenho certeza de que ela faria algo por mim. Era melhor que ela estivesse desfalecendo. Cheguei a confabular com o lado sujo da minha moral como seria o jeito ideal de fazer tudo aquilo virar verdade, mas aí eu já estava quase acordando, dormindo, acordando outra vez. E quando a luz do sol invadia o quarto, eu colocava os pés no chão, a raiva voltava. A vontade de sumir, voltar com lâminas, arrancar sangue. Seria bonito, estético, colocar o “FIM” em grandes letras de sangue naquela parede onde deixávamos bilhetinhos. Ri.

