Escuras
Não consigo ler. Larguei meu marcador de páginas no meio do capítulo – coisa que detesto fazer – mas não podia continuar. Seria até uma falta com Dostoiévski. As palavras passavam como a estrada em alta velocidade diante dos meus olhos, e pela minha mente ecoavam os gritos de raiva que não saíram pela garganta. Se sairão ou não, depende do que esses olhares ao redor farão comigo. Posso surtar, matar todos, matar um ou dois, posso apenas gritar. Posso simplesmente olhar e esperar sem saber ao certo o que estou fazendo. Posso deixar que continue essa amarga invasão de pensamentos obscuros, sede de vingança ou de garganta seca mesmo, fome de paixão, saudade, e vontades. Vontades diversas. Sons que giram me envolvendo, o preto e o vermelho se misturando, fazendo o amargo ficar doce – eu quero mais, eu quero melhor. É tudo um só. É tudo uma tensão só. É tudo uma vontade, diversa, só. Não consigo escrever.