Não sei a data do texto, só sei que veio aos olhos públicos hoje, no último dia do mês. Gostei da sinceridade com a qual ela anda tentando se vestir, pelo menos nesses textinhos baratos que todo mundo lê. Baratos eu digo porque eles estão aí, olhos quaisquer podem ler a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. É disso que eu não gosto, dessas máscaras de sinceridade. Mas às vezes acho que a máscara dela é a ficção. Enfim, não gosto. Não gosto de não ter certeza.
Não sei qual foi a máscara, mas sei que foi máscara. Sei que foi máscara porque chegou à caixa de correio dela um bilhete – com ares de resposta – de outrem. Como eu sei? Sou deus, acredite. Mas sou um deus inútil, não consegui sequer descobrir a que o bilhete respondia. Uma resposta simples e doce, ah isso sim, doce como açúcar. Deus ou mortal, é fácil deduzir que ela anda se atirando nos braços desses outrens que respondem aos seus pingos de carência, suas súplicas, seus tremores. Tremores sim, ela parece que faz o universo tremer pra se colocar no centro dele. Se as coisas saem de órbita, lá vai ela novamente.
Não sei, não me esclareci sobre aonde quero chegar. Talvez eu deva dizer a ela que ela procura nos outros as coisas que só se acha dentro de si. Ela procura nos outros e é certo que não acha em ninguém. E daí vêm os outrens, mais alguéns e mais e mais. Ora, mas que queres? Que a vida seja um bordel, reduzido a momentos passageiros de prazer? Sim, a vida são momentos passageiros, mas pelo amor de deus – e se sou deus, pelo meu amor! – tenha o controle do gatilho desses momentos em suas próprias mãos!
Eu passei por ela. Não fui de todo embora, mas pode-se dizer que passei sim. Como eu passarão outros, mas nenhum deles fará a pequena olhar pra dentro de si mesma. Isso eu tentei fazer, meio que inconscientemente, naturalmente – depois de algum tempo percebi que faço isso com as pessoas. Não sei se fiz direito. Algo me diz que não, ou que ainda falta fazer, falta reescrever essa história com mais força, com tinta mais forte, ou até mesmo cravar nas paredes para que a história em si seja a marca da erosão nesses muros frios, e não o contrário. E eu me preocupo com a pequena, sim. Ah se me preocupo. Não sei como, mas me preocupo. Tenho que dizer tudo isso a ela. Tenho que lhe dar um espelho. Tenho que ser o espelho. Tenho que fazê-la perceber esse espelho.
Eu poderia chamá-la pra sair, mas não me animo. Não agora, não sei… talvez outra hora. Mas não me animo porque sei que ela está vestindo as máscaras dela pra mim. Disso eu não gosto, porque são as máscaras que olhos quaisquer podem encarar a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. Não me animo, me encolho, fujo até! Fujo porque me nego a ocupar mais um lugar na estante. Me nego a dividir prateleiras. Recuso a redução a algo imóvel. Nunca fui igual a ninguém, é natural que eu me recuse a assumir o tipo de posto que ela está tentando me dar (ou está me dando por hábito). Não, prefiro não ser. Prefiro que este incômodo continue pairando no ar. Eu aprecio o incômodo. Eu estou adorando o incômodo como adorava o perfume que vinha pelo vento quando ela mexia os cabelos! Eu adoro o incômodo e farei de tudo para que ele se mantenha no ar enquanto ela agir dessa maneira. Nunca fui igual a ninguém. É natural que eu me negue a tudo isso. É o certo!
Não é orgulho, eu juro, eu juro por tudo o que há pra ser jurado que não é orgulho. Pode soar ridículo o que vou dizer agora, mas digo mesmo assim: é a preocupação com ela que me faz agir dessa maneira. É a preocupação, e vá lá, umas doses de ciúmes sim, mas a preocupação palpita forte no meu peito. Não fico feliz em vê-la, tão falsamente certa de si mesma, sumindo nos braços alheios. Não fico feliz que vá procurar as peças do seu quebra-cabeça interior na cama dos outros. Porque os outros são inúteis! Os outros não vão te fazer olhar pra dentro de si! Era isso que eu tinha que gritar pra ela! Eu podia fuzilar essa gente toda – me matar em seguida para que não me acusem de egoísmo – e deixar somente ela e um espelho. Mas…
Mas o que me garante que ela sabe se ler?
É, lá vão mais noites de preocupação…
Archive for March, 2009
Dos que me convencem que sou anjo
Posted in Redness on March 31, 2009 by heaverEscuras
Posted in Yet unsorted on March 25, 2009 by heaverNão consigo ler. Larguei meu marcador de páginas no meio do capítulo – coisa que detesto fazer – mas não podia continuar. Seria até uma falta com Dostoiévski. As palavras passavam como a estrada em alta velocidade diante dos meus olhos, e pela minha mente ecoavam os gritos de raiva que não saíram pela garganta. Se sairão ou não, depende do que esses olhares ao redor farão comigo. Posso surtar, matar todos, matar um ou dois, posso apenas gritar. Posso simplesmente olhar e esperar sem saber ao certo o que estou fazendo. Posso deixar que continue essa amarga invasão de pensamentos obscuros, sede de vingança ou de garganta seca mesmo, fome de paixão, saudade, e vontades. Vontades diversas. Sons que giram me envolvendo, o preto e o vermelho se misturando, fazendo o amargo ficar doce – eu quero mais, eu quero melhor. É tudo um só. É tudo uma tensão só. É tudo uma vontade, diversa, só. Não consigo escrever.

