“Eu não sei exatamente em que ponto as coisas começam a desandar…”
A frase até então estava fora do meu contexto, mas acabou por se encaixar perfeitamente nele.
As coisas desandam, e na minha cara aparece o inchaço, as consequências de ter em cada olho um coração, uma puta. Os sais minerais, a água e o sol para uma paixão. Uma? Futilidade com raízes profundas – sofro desse mal. E eu me queixo das outras, pelas quais as minhas putas oculares se entorpecem.
Daí, eu me digo em tom firme que não vale a pena tanto sacrifício pra nada. Fica ali no canto, na surdina, na miúda, só olhando, escutando. Se for vista, cumprimente. A longo prazo se provoca um acidente.
Não gosto de me sentir o único guardanapo disponível à mesa. Na primeira vez é usado com carinho, com vontade. Na segunda, “ih! não tem outro, vai esse mesmo”; na terceira é com força, apertando pra ver se ele dá conta de limpar só por limpar, se encharca, pesa, suja. Até que ninguém aguenta mais; nem o guardanapo, nem a porca que estava se utilizando dele. Não, comigo não. Simplesmente abaixar a cabeça e concordar não faz parte dos meus planos.
Chorar demais me dá ânsia de vômito. E eu queria que ela me interrompesse agora, pra eu dizer que estou no meio do meu ócio criativo, e ela pedir desculpas por estar interrompendo. Aí eu ia dizer com todas as letras que não hesitasse, porque ela é a fonte de inspiração. E ia acrescentar mais todas as letras pra dizer que a inspiração não é tão feliz assim. Não ia dizer que é de raiva, não. Mas ia deixar no ar um suspense, uma vontade de ver o que se cria com isso, com ela. E morreria aí. Outras letras pra dizer que não tenho vontade de compartilhar. Não!
Uma pontada, uma facada, uma gota de sangue, várias. Jovem, carne fresca, pronta pra sofrer. E é nessa idade mesmo que se sofre desse jeito. Então deixa. Se se arrepender do estrago todo, tem meus braços. O sorriso mau se transforma em carinho, abraço. Eu também sei reconhecer, perdoar, recompor, rejuntar…
Comi tantos daqueles docinhos chamados “Dois Amores”, e agora veja só…
Mas quando menos se espera a gente provoca um acidente. Invoca até Nossa Senhora das Graças, ou qualquer outra delas, tanto faz, é a mesma. Até a santidade é esquizofrênica, imagine as tentações ambulantes neste mundo. Pelo menos a santa teve a decência de deixar, por sabe-se lá qual forma, sabermos que é todas e uma só.
E minhas ironias jamais são compreendidas. Talvez a santa entenda, quem sabe? Pena que não me responde. Podia aparecer, em sonho que fosse, pra gente ir tomar um café, um licor, botar a conversa em dia. Mas a santa não é boba, talvez esteja de férias, e sabe muito bem (se escuta todos os meus pedidos, como se supõe que escute) que vou lhe dar trabalho. Ah, minha santa…
Esta noite minhas reticências não são de censura. Talvez sejam de precipitações se transformando em reflexões. Não sei ao certo. Quando os pensamentos são cenas, demora-se a convertê-los em palavras ou sons.
Já chorei, as lágrimas já evaporaram, já idealizei a próxima conversa. Já.
Vamos à frieza da cama, que por mais fria que tenha estado, tem me acolhido muito bem.