Dois de Junho
Linda, teu silêncio me faz refletir. Uma coisa na tela, outra melhor ainda andando lá nos corredores. Melhor?
Melhor, sim. As diferenças que realçam o de lá em relação ao daqui me fazem crer que o de lá é mais autêntico. Mais mordível. Mais vermelho.
Vermelho sangue. Porém doce. E não quente, não, quente não! Geladinho. Aquele geladinho, que dói quando a gente encosta, mas que a gente é tentado a encostar várias e várias vezes.
Seu silêncio é diferente do silêncio dela, que me afligia. Afligia, aflige e afligirá. O seu silêncio, sei, será quebrado, e com palavras geladinhas daquelas que dói quando a gente lê, mas a dor é das
melhores, e a gente é tentado a ler e reler várias vezes. Das melhores? Das melhores, sim.
Das dores, as melhores; das palavras também – digo, as escritas. As faladas não sei. Espero que não sejam tão boas quanto as escritas. Isso mesmo, espero que sejam, vá lá, boazinhas. Não vou me sentir
culpada ou sem motivo quando resolver…
As reticências aí em cima foram de censura. Por agora. E por mais que não falar deixe as coisas muito mais óbvias. Dane-se. Por agora os pratos não estão tão limpos assim.
Mas você vem, linda, você vem e com você vem a fumaça. Você vem linda – sem vírgula agora – e com você vão meus olhos. O vai-e-vem, o olha-não olha, desvia daqui, desvia dali, maldita criatura que se
meteu na minha frente agora, tudo isso – nossa, eu tava com sono e acordei completamente – tudo isso me faz refletir, e lembrar, e relembrar. E não acreditar nisso de agora.
E sorrir porque é verdade assim mesmo. Ora, veja só! Como foi mesmo que você disse que minha cara era?
Eu queria um vidro pra gente embaçar e escrever com a ponta do dedo. O vidro geladinho, que dá aquela dorzinha quando a gente encosta, mas é bom e a gente termina de encostar. Encosta logo a bochecha
e escreve com a língua, ora! Embaça antes, claro; embaça bem. Bafo vermelho, de cerejas e cigarro.
E quem sabe o geladinho lá de cima vire quente, hein? Mas vamos com calma. Não é sede ao pote, é curiosidade. E essas suas palavras bonitinhas demais talvez estejam dando um quê de tentação à coisa toda.
E essas palavras adicionais que você cospe sem a mínima necessidade acabam virando combustível pra minha curiosidade, e a combustão… não quero falar dela agora.
E o silêncio visual brevemente interrompido por um “boa noite” já se transformou em barulhada mental. Ê lerê…