A marca no pescoço era de outrem. Os beijos, os carinhos, o corpo. Era tudo muito bom, era como se do completo e absoluto repente todos os problemas se lhe esvaíssem da consciência e ela ficasse em paz. O colorido já não vibrava mais na frequência do vermelho; era tudo mais claro, mais leve e mais pacífico, mas de fato, paz ali não havia nenhuma. Medos, um turbilhão de medos. Medos brancos, medos lindos, alguns doces, outros amargos. E as certezas? Será que elas existem mesmo ou sou só eu inventando? E se eu puder inventar pra sempre? E se certezas não importarem nada? Eu quero é saber das vontades! Quero mais é que elas se concretizem! Eu sinto tudo em sintonia, os beijos, as mãos, os dizeres, a reciprocidade, mas também sinto esses medos; eles estão pairando no ar e ora! não deixam de estar em mim também. Talvez seja a parte mais horrível da nossa história toda, admitir que temo tudo o que temo.Nunca tive grandes problemas em me atirar no sentimento, mas isso não exclui o medo, que por sua vez não deixa de gerar lágrimas. Mas pára! Eu me digo em voz alta Pára! Não pensa que é pior. Vive, vive sem se importar pois tudo isso é uma grande confusão; Se eu penso, eu penso em medo, eu penso no que um dia foi vermelho, no que foi palco e desculpa pra eu me escancarar pra quem importa, penso e não entendo nada, não entendo o que aconteceu, não entendo as pedras que o novo põe no velho, não entendo o que está acontecendo. Aí eu abstraio, procuro viver. E na minha mente só restam as mãos, os beijos, os sussurros…
Salivando…
Posted in Redness, Yet unsorted on May 26, 2009 by heaverUm bilhete que dizia que estava melhor, imune, segura de si. Eu ri, mas eu ri, porque era de fato a melhor coisa que poderia ter me aparecido aos olhos. Foi por um acaso – um acaso forçado sim, mas um acaso, afinal eu nunca podia prever o que econtraria na caixinha de surpresas dela. Mas foi nesse acaso ocasionado por mim que eu encontrei a prova de que eu sou a insegurança dela. Agora que fui embora ela se sente recomposta e segura. A mim ela não sai ilesa. Eu sou o elemento que faz ela perder o controle, é a minha autenticidade que faz ela virar poeira. E toda a nossa história se resume em embasbacamento, perda de sentidos, tentativa de retomar o controle. Já ouvi isso de alguns, fato, já ouvi “é só mais uma tentativa dela de retomar o controle” – não me importava ao ponto de fazer análises, mas agora, com esse bilhetinho torpe, fato, parei e analisei. E ri, como os loucos doentes – como ela mesmo me chama aos sete ventos! Como será que ela ficaria me vendo rir doentia e sabiamente disso tudo? Com que intensidade será que os olhos dela flamejariam ao ver que nos meus cadernos os adjetivos são bem mais cruéis, e por ser assim, mais de acordo com a realidade? Qual seria a careta que o gosto da realidade provocaria no belo rostinho dela?
O que era pra ser amargo na minha boca acaba tendo o gosto mais doce e agradável que eu poderia esperar de você, minha cara. Entendo a necessidade de você se afirmar com um tapa na minha cara, mas isso só me prova o quão ridícula e indefesa você é. Eu gosto de você mesmo assim, suaria por horas com você na cama, ainda teria o desplante de sussurrar aos teus ouvidos “te amo, linda“, e te levaria ao êxtase para sempre sem questionar nada, sem questionar as tuas imbecilidades, as tuas infantilidades, o teu orgulho idiota e limitante, a tua máscara, a tua vontade de aparecer. Você é ridícula e imprestável – a não ser no sexo, de fato. Inclusive, por que não estás na minha cama agora? Me parece a única maneira com a qual podemos nos aproveitar – no sexo e nas conversas e cigarros depois dele. Você sai ganhando, afinal eu tenho muito mais a te acrescentar, minha bela. Ainda brindar com teu suor e teu sangue; teu prazer, meu prazer. Eu adoro a dor desses seus tapas de auto-afirmação. Eu vou rir de você até o fim da minha vida, eu vou rir até você acabar com a sua. Sim, tenho uma mente louca e olhos deveras doentes, porque apesar de tudo isso, ainda enxergo enorme beleza e potencial nessa sua sujeirada toda.
De mais um dia ensolarado
Posted in Redness on May 4, 2009 by heaverA garrafa ainda está aqui, pela metade. Água, sim. Eu não estava com a mínima sede.
Fui, como se não me restasse nada mais na vida, como se fosse a salvação. “Vou comprar água”. Fui. Não olhei para ela até que estivesse com a garrafa na mão e o troco no bolso. Forcei uma cara de surpresa (que não sei se ficou tão óbvia graças aos óculos escuros – coisa que acabei achando boa) e ela um oi; certamente estava me espreitando com o olhar há algum tempo, porque os olhos de uma pessoa que está escrevendo não podem estar de prontidão dessa maneira. Sim, ela estava escrevendo. Atividade que lhe cai bem, eu só tiraria os óculos escuros, ficaria ainda melhor. Então éramos dois pares de óculos escuros lá pelo meio dia, uma hora da tarde. O clima agradável talvez tenha contribuído para a minha abordagem, também meio agradabilóide. São coisas desse tipo que me fazem detestar a luz do sol. Por que tem que brilhar assim? Nós vestimos nossos óculos escuros e eis a nossa proteção. Que venha o social! – Ora, que atitude débil.
Foi bom não terem cadeiras disponíveis. Permaneci de pé. Pude ver alguns movimentos dos olhos dela pra lá e pra cá por cima dos óculos, foi um bom ângulo. E eu já estava praticamente me afogando naqueles goles desnecessários, nervosos, sufocantes. Eu tinha pingos de repulsa por ela, mas tenho certeza de que não me demoraria muito se resolvesse inventar algum outro tipo de sede por ali – a sede por aqueles lábios. Não era um dia para derramamento de sangue, era um dia ensolarado e a única maneira de fazê-lo render seria esquecer do sol. E como se esquece do sol, minha gente? Só matando essas sedes…
Os lábios dela são carnudos, me lembro bem de como era bom demorar neles. Eu beberia galões de água para tê-los outra vez se demorando nos meus. É uma verdade ridícula, mas não deixa de ser verdade. E doentia. Mas o homem é um compêndio de doenças e eu não vejo motivo em esconder as minhas.
Eu via um resquício de felicidade transbordar dela, e isso me causava todo o bem e o mal que algo pode causar a alguém. Era bom me ter ali? Será que só eu sentia aquela sensação de incompletude, de coisas fora do lugar?
Tudo isso é muito difícil de esclarecer num dia de tanto sol. Preciso agir num dia negro, nublado, fechado ao extremo. Eu não teria desculpas para ir comprar água, mas o ímpeto seria o mesmo. Ela não teria porque vestir os tais óculos escuros, e mesmo que estivesse com as olheiras mais fundas, seria ridículo. Ela ia ficar elegante com roupas de frio, escrever ia lhe cair bem melhor, e se houvesse chuva… ela ia poder lembrar dos nossos momentos despedida-na-chuva.
Psicose I
Posted in Golden Mirror, Redness, Yet unsorted on April 21, 2009 by heaver- Teve delírios – disse o médico a dois amigos que acabavam de chegar. – Passou a noite delirando, só dormiu de vez lá pelas quatro.
Era como se nada que fosse dito pudesse dar cabo da dúvida transbordante no olhar dos recém chegados. O mais alto, depois de algum tempo de silêncio, finalmente se recompôs a ponto de fazer uma pergunta.
- Que tipo de delírios?
- Balbuciou coisas ininteligíveis, falou de homens importantes da história… e sangue. – a dúvida preencheu o olhar do médico ao pronunciar essa última parte.
- Sangue?
- Sangue…
- Que sangue? Sangue de quem? – falava agora com certa impaciência o rapaz alto.
O médico não sabia como responder, afinal era sangue, ora, como ‘que sangue’? Eram só coisas de uma pessoa doidivana, por que eles dariam tanta importância a devaneios? Mas ele ficava nervoso ao perceber que ele mesmo estava se questionando, ele também queria saber, ele também estremeceu ao ouvir longos discursos sobre sangue durante a noite. Estava certo de que não era só sangue em geral; tinha dono, ou dona.
- Mas afinal, qual é o diagnóstico? – perguntou o mais baixo, que havia se mantido em silêncio e dúvida até então.
- Febre. Febre das mais altas. Justifica os delírios. As causas podem ter sido diversas, é difícil dizer quando não se tem meios para avaliar… – disse isso e saiu, quase como quem quer evitar mais perguntas incômodas. Deixou os dois no quarto.
Eu ouvia tudo em silêncio, fingia dormir, não queria encarar ninguém. O máximo de tolerância era a parede rachada na minha frente. Era bom fixar o olhar na rachadura e me ausentar do mundo, tentando descobrir por que é que a parede estaria rachada bem ali. O prédio certamente já havia se movido muito, era uma construção bem antiga. Será que a qualquer momento tudo podia desabar? Quem estaria em casa no momento da queda? Quem chamaria socorro? Alguém sobreviveria?
- Ao menos parece bem agora.
- É bom que durma bastante.
A conversinha dos meus amigos preocupados me enchia de raiva. Eu queria estar só. Por um instante pensei em levantar aos gritos, “Fora! Fora! Deixem-me só! Saiam!”, mas o impulso perpassou rápido demais e eu não me ative a ele enquanto pude. Tudo que eu queria era que eles calassem a boca, se pusessem porta a fora. Queria pegar o meu caderno no fundo do armário e anotar “beautiful words, lady” e deixar que o resto viesse à minha mente. “How about acting on them?” parecia uma boa continuação. Faltava raiva, faltava uma lâmina bem afiada acariciando aquela pele. Faltava sangue! Faltava o sangue!
Será que eu tinha tido delírios mesmo? Seria isso agora o delírio voltando, se apossando de mim?
- É melhor que vocês esperem aqui fora, pode ser que demore a acordar – disse o médico colocando a cabeça para dentro do quarto. – Vamos, venham. Vou lhes servir um chá.
Foram.
Era delírio, era delírio isso agora. Porque quando eu ia dormir, ora, eu queria tanto abraçar alguém! Eu ia dormir, eu mudava de opinião. A raiva ia embora, eu queria ela nos meus braços sim, era só o que eu queria. Mas era delírio, era eu delirando novamente! Cheguei a desejar encontrá-la à beira da morte no meio da rua, para que eu pudesse tomar conta dela, salvá-la, carregá-la, tê-la em meus braços mais uma vez. Eu queria ela morrendo. Pensei em morrer eu, mas não tenho certeza de que ela faria algo por mim. Era melhor que ela estivesse desfalecendo. Cheguei a confabular com o lado sujo da minha moral como seria o jeito ideal de fazer tudo aquilo virar verdade, mas aí eu já estava quase acordando, dormindo, acordando outra vez. E quando a luz do sol invadia o quarto, eu colocava os pés no chão, a raiva voltava. A vontade de sumir, voltar com lâminas, arrancar sangue. Seria bonito, estético, colocar o “FIM” em grandes letras de sangue naquela parede onde deixávamos bilhetinhos. Ri.
O nada que eu já não sei o que é
Posted in Redness, Yet unsorted on April 18, 2009 by heaverE de súbito uma frieza – como que a frieza dos assassinos – me surpreendeu. Era como se voltasse tudo ao nada. Era como se eu olhasse e nenhuma palpitação me viesse ao peito, nenhum calor, nenhum frio. Nada.
Uma sensação deveras surpreendente depois de tudo que tem se mostrado, tudo que tem se escancarado no meu rosto, no fundo dos meus olhos; mas confesso que já não é a primeira vez que se volta ao vazio. Já aconteceu no meio de julho passado – sim, julho! O mês que não me falha em trazer novidades. Nada tão forte quanto nesses últimos dias – sim, porque isso de agora já tem me durado alguns dias, mas uma inércia estranha. Agora ela se repete mais forte, vira vontade de ficar inerte, falta de ímpeto para sair da inércia ou mais! Um protótipo de ímpeto de virar as costas e fixar o olhar em algum defeito da parede, alguma lasca no chão, alguma mancha de tinta, qualquer coisa; qualquer coisa pra me distrair desse nada. Por que não ir embora? Tomar o caminho da rua. Passar sem que ninguém me aviste, sair pela porta afora, me enfiar no meio dos transeuntes, descansar ao som dos músicos de rua, andar sem rumo.
Não comparo essa frieza à frieza dos assassinos à toa. Agora, não sei se o que me açoita é a morte ou é o crime; Morreu? Ou será que obliterei com minhas próprias forças?
Ciclo básico
Posted in Redness, Yet unsorted on April 14, 2009 by heaverAbril, a neve já devia estar derretendo, mas os flocos finos quase invisíveis ainda grudam no meu casaco preto quando saio na rua. Há dias em que o sol brilha sim; eu aproveito… até me lembrar que não gosto de sol. Não, não assim. Por mais que seja fraco ainda queima. O melhor sol é aquele que brilha quando estamos entretidos demais para perceber que ele está lá. Sendo assim eu rezo para que os flocos de neve engrossem. Consigo sorrir ao chegar em casa e sentir os inúmeros pontos gelados por minhas roupas, cabelo e rosto.
Mas é abril, a neve vai cessar de cair. A neve vai começar a derreter, e nossas calçadas tomarão aquele aspecto repugnante que todos detestam. Até que o maldito sol derreta tudo.
Naquele Momento ou Às Moscas
Posted in Redness on April 7, 2009 by heaverSentei ao pé da escada, passavam pessoas e pessoas e rápido e rápido. Moscas ao meu redor – estava do lado da lata de lixo. Ri com ironia, um riso curto, e pus-me a ler Dostoiévski. O trânsito de pessoas era um estímulo para minha concentração; o que as moscas atrapalhavam era desfeito pelo desprezo dos passantes. Não sei quantos me lançaram algum olhar, mas o desprezo era sentível, mesmo meus olhos não desgrudando do livro. A situação toda era uma ironia – eu, abaixo dos homens, em meio às moscas, lendo notas que retratavam praticamente uma vida inteira vivida assim. Eu ria de vez em quando, eu ria disso… Não era engraçado, eu ria de raiva. A raiva em forma de riso já não era novidade para mim. Eu ri de raiva das companhias dela – que sabem muito bem quem sou e nem sequer me olham nos olhos! Eu ri, e com aquele mesmo riso podia matar alguém. Mas a verdade é que naquele momento não consegui matar nenhuma mosca sequer. Eu virava a página, eu dava outro tapa no ar, eu ria. De repente o coração me pulou até a boca, e me dei conta que o canto dos olhos tinham a avistado. Tremi – como se não bastasse comecei a tremer! Uma pilha de nervos, ao pé da escada, do lado da lixeira, cercada de moscas. Era bem o que eu era naquele momento, era só o que eu era naquele momento. Ela, que fora sempre tão visível aos meus olhos, tinha se perdido. Eu não podia olhar, não era certo abandonar meu Dostoiévski por um milisegundo de prazer. Ela estava sumindo, e tomei outro susto ao perceber que estava a poucos metros de mim. Conversava, as companhias ignóbeis – não me importa do que falavam… e a verdade é que qualquer companhia seria ignóbil naquele momento. Era assustador de fato! Eu sempre a via, sempre! Tive dificuldade de a distinguir… era muito assustador. Demoramos assim – eu no susto, ela na trela – por longos minutos. Eu ainda tremia e me odiava por isso. Passados mais alguns minutos, senti que ela se aproximava. Me recusei a levantar os olhos do livro até que sua mão se estendeu a mim num cumprimento… ordinário! Eu a detestei por isso, fechei a cara; minha expressão não foi nada amigável, eu senti. Tentei mudar, mas desisti. Respondi às perguntas mais ordinárias com esforço – era penoso ter que encarar perguntas que ela perguntaria a qualquer imbecil. Tudo bem, naquele momento eu estava lá no meio das moscas. Será que ela consegue entender que eu me recuso a assumir esse papel de ser ordinário? Raiva, risos, moscas, chão. Ela não entende nada, ela diz que entende, ela não sabe de nada. Ela não faz esforço algum para nada. Só Deus sabe o quanto odeio a posição ordinária. Raiva. Ela insiste nisso, e me dá raiva – não dela, mas de não poder realizar meus desejos. No dia anterior, por exemplo, tive plena convicção de que o melhor a ser feito era lhe dar um abraço. Eu ia lá e ia abraçá-la, ponto. Era o que falava com força dentro de mim, até o dado momento – esse maldito momento, de estar ao pé de uma escada fria, às moscas. O momento em que somos transformados num nada. Esse maldito momento, que há de se repetir, eu sei – a gente sempre sabe, ele há de se repetir enquanto nenhuma bomba explodir. Ela foi, subiu a escada. Fiz o que me restava – estapeei o ar, sem acertar sequer uma mosca.
Dos que me convencem que sou anjo
Posted in Redness on March 31, 2009 by heaverNão sei a data do texto, só sei que veio aos olhos públicos hoje, no último dia do mês. Gostei da sinceridade com a qual ela anda tentando se vestir, pelo menos nesses textinhos baratos que todo mundo lê. Baratos eu digo porque eles estão aí, olhos quaisquer podem ler a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. É disso que eu não gosto, dessas máscaras de sinceridade. Mas às vezes acho que a máscara dela é a ficção. Enfim, não gosto. Não gosto de não ter certeza.
Não sei qual foi a máscara, mas sei que foi máscara. Sei que foi máscara porque chegou à caixa de correio dela um bilhete – com ares de resposta – de outrem. Como eu sei? Sou deus, acredite. Mas sou um deus inútil, não consegui sequer descobrir a que o bilhete respondia. Uma resposta simples e doce, ah isso sim, doce como açúcar. Deus ou mortal, é fácil deduzir que ela anda se atirando nos braços desses outrens que respondem aos seus pingos de carência, suas súplicas, seus tremores. Tremores sim, ela parece que faz o universo tremer pra se colocar no centro dele. Se as coisas saem de órbita, lá vai ela novamente.
Não sei, não me esclareci sobre aonde quero chegar. Talvez eu deva dizer a ela que ela procura nos outros as coisas que só se acha dentro de si. Ela procura nos outros e é certo que não acha em ninguém. E daí vêm os outrens, mais alguéns e mais e mais. Ora, mas que queres? Que a vida seja um bordel, reduzido a momentos passageiros de prazer? Sim, a vida são momentos passageiros, mas pelo amor de deus – e se sou deus, pelo meu amor! – tenha o controle do gatilho desses momentos em suas próprias mãos!
Eu passei por ela. Não fui de todo embora, mas pode-se dizer que passei sim. Como eu passarão outros, mas nenhum deles fará a pequena olhar pra dentro de si mesma. Isso eu tentei fazer, meio que inconscientemente, naturalmente – depois de algum tempo percebi que faço isso com as pessoas. Não sei se fiz direito. Algo me diz que não, ou que ainda falta fazer, falta reescrever essa história com mais força, com tinta mais forte, ou até mesmo cravar nas paredes para que a história em si seja a marca da erosão nesses muros frios, e não o contrário. E eu me preocupo com a pequena, sim. Ah se me preocupo. Não sei como, mas me preocupo. Tenho que dizer tudo isso a ela. Tenho que lhe dar um espelho. Tenho que ser o espelho. Tenho que fazê-la perceber esse espelho.
Eu poderia chamá-la pra sair, mas não me animo. Não agora, não sei… talvez outra hora. Mas não me animo porque sei que ela está vestindo as máscaras dela pra mim. Disso eu não gosto, porque são as máscaras que olhos quaisquer podem encarar a qualquer hora do dia. A gente sempre veste máscaras na hora de aparecer pra todo mundo. Não me animo, me encolho, fujo até! Fujo porque me nego a ocupar mais um lugar na estante. Me nego a dividir prateleiras. Recuso a redução a algo imóvel. Nunca fui igual a ninguém, é natural que eu me recuse a assumir o tipo de posto que ela está tentando me dar (ou está me dando por hábito). Não, prefiro não ser. Prefiro que este incômodo continue pairando no ar. Eu aprecio o incômodo. Eu estou adorando o incômodo como adorava o perfume que vinha pelo vento quando ela mexia os cabelos! Eu adoro o incômodo e farei de tudo para que ele se mantenha no ar enquanto ela agir dessa maneira. Nunca fui igual a ninguém. É natural que eu me negue a tudo isso. É o certo!
Não é orgulho, eu juro, eu juro por tudo o que há pra ser jurado que não é orgulho. Pode soar ridículo o que vou dizer agora, mas digo mesmo assim: é a preocupação com ela que me faz agir dessa maneira. É a preocupação, e vá lá, umas doses de ciúmes sim, mas a preocupação palpita forte no meu peito. Não fico feliz em vê-la, tão falsamente certa de si mesma, sumindo nos braços alheios. Não fico feliz que vá procurar as peças do seu quebra-cabeça interior na cama dos outros. Porque os outros são inúteis! Os outros não vão te fazer olhar pra dentro de si! Era isso que eu tinha que gritar pra ela! Eu podia fuzilar essa gente toda – me matar em seguida para que não me acusem de egoísmo – e deixar somente ela e um espelho. Mas…
Mas o que me garante que ela sabe se ler?
É, lá vão mais noites de preocupação…
Escuras
Posted in Yet unsorted on March 25, 2009 by heaverNão consigo ler. Larguei meu marcador de páginas no meio do capítulo – coisa que detesto fazer – mas não podia continuar. Seria até uma falta com Dostoiévski. As palavras passavam como a estrada em alta velocidade diante dos meus olhos, e pela minha mente ecoavam os gritos de raiva que não saíram pela garganta. Se sairão ou não, depende do que esses olhares ao redor farão comigo. Posso surtar, matar todos, matar um ou dois, posso apenas gritar. Posso simplesmente olhar e esperar sem saber ao certo o que estou fazendo. Posso deixar que continue essa amarga invasão de pensamentos obscuros, sede de vingança ou de garganta seca mesmo, fome de paixão, saudade, e vontades. Vontades diversas. Sons que giram me envolvendo, o preto e o vermelho se misturando, fazendo o amargo ficar doce – eu quero mais, eu quero melhor. É tudo um só. É tudo uma tensão só. É tudo uma vontade, diversa, só. Não consigo escrever.
“Sangremos juntas!”
Posted in Golden Mirror, Redness on February 24, 2009 by heaverDevia ser ódio ou algo parecido. Talvez amor, não se sabe ao certo. Mas alguma coisa de fato fazia as duas se revelarem das mesmas cores, e a um só tempo. Em silêncio absoluto, distantes; porém em uma sintonia sem igual. Nem se sabe se elas próprias sabem. Ora, mas é claro que sabem! Uma delas de vez em quando dá um grito “sangremos juntas, então!“, e a outra compreende muito bem – sente muito bem. Uma vez até ousou descer do salto, confessar as próprias dores, mostrar as feridas, mas acabou correndo. É esse o tipo de coisa que incomoda a nós, os mais vividos. Se elas soubessem o quanto elas merecem se entregar… se elas soubessem o que é que faz tudo sair tão igual, tão vívido, tão…
“Sangremos juntas!” – outra súplica que se perde na saída da garganta, outra noite que se passa sem gosto, sem sentido.
Sangrem juntas sim, antes que o sangue escorra-lhes todo ralo abaixo. Sangrem e não se iludam com o fechar das feridas – o que está escrito em cicatrizes não vai embora. Sangrem juntas e sem medo, afinal o sangue é o que a vida lhes tem a oferecer de bom.

